Estereótipos escondem diversidade real da situação feminina nos diferentes países e classes do mundo islâmico
SAN ANTONIO, EUA - Desde os ataques terroristas ao World Trade Center e ao Pentágono, multiplicam-se as imagens do Oriente Médio, cenas que retratam belicosos protestos de rua, tranqüilos momentos de oração ou pessoas tratando do seu dia-a-dia na esfera pública. Depois de alguns momentos, percebe-se algo de estranho nessas imagens: não há mulheres. Nunca. É como se a outra metade da população não existisse.
Quando Al-Badr Al-Hazmi, o radiologista de San Antonio, Texas, a princípio suspeito e depois isentado de cumplicidade nos ataques, voltou para casa depois de sua detenção, aconteceu algo igualmente estranho, ao menos pelos padrões ocidentais. Sua mulher não pôde sair de casa para falar com a imprensa, e somente repórteres do sexo feminino tiveram permissão para entrar e falar com ela.
As imagens de mulheres islâmicas em alguns países do Oriente Médio e da Ásia Central mostram-nas com roupas que as escondem e freqüentemente isoladas da sociedade. O noticiário fala de vidas femininas limitadas - as mulheres afegãs não podem trabalhar, sair de casa nem mesmo ir ao médico, as sauditas não podem dirigir carro. Flagrantes noticiosos documentam espantosas execuções de mulheres adúlteras e mostram mesquitas e escolas abertas apenas aos homens.
Para o americano médio, não versado em islamismo, essas imagens tendem a levar a uma conclusão óbvia: as mulheres muçulmanas são oprimidas. Sua cultura e sua religião as relegam a um status secundário, no qual levam vidas infelizes de servidão aos machos que governam seu mundo.
Sem certezas - Mas basta examinar mais de perto a questão do islamismo e das mulheres e esta certeza desaparece. O islamismo é na essência uma religião sexista? As mulheres muçulmanas levam vidas de opressão? O véu significa necessariamente sujeição? Todas as muçulmanas estão no mesmo barco miserável?
''Não existe uma sociedade muçulmana monolítica'', diz Elizabeth Fernea, professora aposentada da Universidade do Texas, que escreveu cinco livros sobre o islamismo, entre eles In Search of Islamic Feminism (Em busca do feminismo islâmico). ''Há uma incrível diversidade no mundo islâmico no que diz respeito às mulheres. Veja-se o caso de extremistas como os talibãs, que fecharam escolas, hospitais e proibiram as mulheres de trabalhar: no mundo muçulmano, muitos dizem que isso é contra o islamismo, contra o Corão.''
Acadêmicos como Fernea ironizam a percepção das mulheres muçulmanas como oprimidas: o Marrocos, por exemplo, tem mais advogadas per capita que os Estados Unidos; o Egito tem mais engenheiras que a Alemanha. O mundo muçulmano tem tido numerosos chefes de Estado do sexo feminino.
Vem então à lembrança a Arábia Saudita, onde as mulheres não têm permissão para viajar sem um parente masculino, para trabalhar em funções típicas do sexo masculino (exceto medicina) ou receber educação e instrução sem permissão do pai. ''Todas essas práticas variam de país a país'', diz Geneive Abdo, jornalista que passou muitos anos cobrindo a região do Oriente Médio para o Dallas Morning News e o jornal britânico Guardian. ''A Arábia Saudita seria considerada muito mais rigorosa até pelos muçulmanos que vivem no Irã, onde as mulheres podem ter empregos, ir à rua e se apresentar em público.''
Dinheiro - O fato é que as mulheres muçulmanas estão sujeitas à mesma realidade que afeta as mulheres em toda parte: é o dinheiro que faz a diferença. O status econômico das mulheres islâmicas ''tem muito a ver com seu bem-estar material'', diz Anne Hardgrove, professora de história na Universidade do Texas em San Antonio.
Segundo Fernea, mesmo na Arábia Saudita as mulheres bem de vida podem ir por exemplo a Paris comprar roupas chiques e sexy (embora não para usá-las em público). Ironicamente, no entanto, a riqueza também pode influir no grau em que uma mulher se vê recoberta de véus e tolhida em seus movimentos: em certas sociedades muçulmanas, diz Hargrove, o fato de não ter de sair de casa para trabalhar pode ser considerado um símbolo de status. ''Não é assim tão diferente da vida das mulheres ricas nos Estados Unidos, não é mesmo?''