Semanário católico italiano apela para a sensualidade em campanha para aumentar a circulação
ROMA -
Na Itália, um bem-nutrido bumbum de moça, ainda mais arredondado por uma apertadíssima calça jeans, passou a ter nova utilidade. Transformou-se na imagem mais estimulante para a promoção da reforma editorial e gráfica e para a campanha de aumento de circulação de
Famiglia Cristiana, o semanário católico mais lido da Europa, atualmente com uma tiragem de 900 mil exemplares. Recentemente, foram programados anúncios de páginas inteiras nos jornais nacionais mais importantes para apresentar o visual novo da revista fundada em 1931 pela congregação dos paulinos, padres católicos que se dedicam à evangelização do mundo através dos meios de comunicação.
A provocação para chamar a atenção do público leitor para o número inaugural da nova fase de Famiglia Cristiana não se esgotou com a imagem do bumbum bem fornido e com a exibição de um exemplar da revista despontando do bolso traseiro do jeans. Completa-se com uma provocação ainda mais maliciosa, numa frase em italiano (''Nuova Famiglia Cristiana non è mica casa e chiesa'') que em português pode ser algo como ''Quem disse que a nova Família Cristã é apenas casa e igreja?''.
Sem timidez - A decisão de esquecer qualquer tipo de prudência e timidez, de aceitar a mais audaciosa e irreverente publicidade - para promover a revista que no artigo de apresentação de seu diretor, padre Antonio Sciortino, afirma ''queremos falar de tudo, não considerar tabu qualquer tipo de tema, deixar-nos guiar pela inspiração cristã que nos caracteriza, não limitar nossa liberdade, dar a quem nos lê uma garantia maior, um valor a mais'' - não foi fácil nem rápida. Ao contrário, foi muito discutida, controvertida, ''digerida com dificuldade'' pelo Vaticano, por uma boa parte do clero italiano, por eminentes cardeais e monsenhores da Cúria Romana.
Depois de consumada, diante dos anúncios de páginas inteiras divulgados por jornais de todos as tendências (''só exigimos que fossem veículos de grande expressão e circulação''), o bumbum promocional da revista que se recusa a ser vista como só casa e igreja entusiasmou e foi aplaudido mais por ateus irreverentes - como Dario Fò, ator, autor teatral e Prêmio Nobel de Literatura - do que pelas mais velhas e jovens gerações de sacerdotes católicos. Enquanto Dario Fò confessava ter tido inveja da idéia (''gostaria que fosse minha''), o cardeal Ersilio Tonini, considerado um dos mais abertos e ativos comunicadores dentre os progressistas do Vaticano, confessava-se perplexo e duvidoso sobre as reações que a maioria dos católicos terá diante do slogan do anúncio: ''Alguém poderá perguntar: Se não é de casa e da Igreja, que raça de revista será essa que se chama de Família Cristã?''
Sem atribuir maior importância à polêmica criada pela imagem do bumbum e a mensagem irreverente do anúncio da nova revista, o padre diretor da publicação continua a apostar que até janeiro do próximo ano Famiglia Cristiana voltará a ser comprada e assinada por 1,4 milhão e lida pelo dobro dos 5 milhões de leitores que tem hoje, apesar da queda de circulação que sofreu nos últimos seis meses.