Segunda-feira, 17 de Setembro de 2001
Três dias para entregar Bin Laden

Paquistão envia hoje missão diplomática ao Afeganistão: se prazo não for cumprido, país sofrerá retaliação militar americana

AFP
Paquistaneses pró-talibãs protestam contra apoio do governo à provável investida americana

Paquistaneses pró-talibãs protestam contra apoio do governo à provável investida americana

ISLAMABAD - O governo do Paquistão envia hoje delegação diplomática ao Afeganistão levando uma carta de ultimato aos talibãs. Se em três dias as autoridades afegãs não entregarem Osama bin Laden, principal suspeito dos atentados a Nova Iorque e Washington e que se encontra escondido nas montanhas do país, terão que enfrentar a retaliação militar americana. Nos próximos dias, os Estados Unidos também enviarão uma missão ao Paquistão para acertar detalhes da cooperação, formalizada na noite de sábado, após conversa telefônica entre os presidentes paquistanês, Pervez Musharraf, e americano, George W. Bush.

O secretário de Estado, Collin Powell, saudou a decisão do governo paquistanês. ''Mesmo com os problemas internos que serão desencadeados por esse apoio, eles (os paquistaneses) decidiram ficar do nosso lado. Eu os congratulo por isso'', disse Powell, após reunião com Bush e consultores em segurança nacional em Camp David. O secretário de Defesa americano, Donald Rumsfeld, que também participou do encontro, afirmou que a ajuda paquistanesa é fundamental para o sucesso da operação militar. ''Temos que combater o terrorismo em várias frentes'', enfatizou.

Resposta - Para o presidente do Paquistão, o confronto parece inevitável. ''Não estamos esperando uma resposta positiva dos talibãs'', disse através de um porta-voz. A missão diplomática voará para Kandahar, no Sul do país, onde fica a base do mulá Mohammad Omar, o líder espiritual dos talibãs. Os enviados especiais tiveram permissão das Nações Unidas para entrar no país. As viagens ao Afeganistão estão proibidas por sanções impostas ao país desde que o regime talibã assumiu o poder.

O Paquistão é um dos três únicos países que reconhecem o regime talibã. Os outros são os Emirados Árabes e a Arábia Saudita. Segundo analistas internacionais, seu apoio aos EUA numa possível invasão ao país vizinho deve-se à forte pressão do ex-aliado durante a Guerra Fria. Retomar as relações com Washington também significa uma oportunidade única para o Paquistão de recuperação econômica. O país tem uma dívida externa de US$ 30 bilhões e, desde 1998, sofre sanções econômicas impostas pelos americanos por ter realizado testes nucleares em resposta aos feitos na Índia.

Exigências - Em troca de apoio, a dívida seria perdoada e as sanções, suspensas. Os Estados Unidos também passariam a exercer mais pressão na questão da Caxemira, área na fronteira do Paquistão com a Índia disputada pelos dois países. O governo paquistanês também exigiu que operações militares envolvendo tropas israelenses e indianas fossem conduzidas longe de suas fronteiras.

O apoio paquistanês aos EUA, no entanto, está longe de ser unânime. Enquanto, o governo preparava a missão a ser enviada ao Afeganistão, 42 partidos se reuniam para discutir sua objeção à posição oficial. Os parlamentares pretendem redigir uma carta de oposição e enviá-la à presidência ainda esta semana. A possibilidade de uma ruptura política fez Pervez Musharraf convocar os principais órgão de imprensa ontem para obter apoio da opinião pública.

Caso haja de fato um confronto, os americanos terão apoio da Aliança do Norte, oposição ao governo talibã no Afeganistão. Ontem, o embaixador nas Nações Unidas do Afeganistão, Ravan Farhadi, um dos representantes da aliança (reconhecida pela ONU como governo), disse de Nova Iorque que porá à disposição dos americanos 15 mil homens para lutar numa possível guerra.

Aliança - Apesar de estarem alinhados (a oposição afegã e o governo paquistanês), a Aliança do Norte está com pé atrás em relação à cooperação do Paquistão, pois este tem uma longa história de fornecimento de armas para o regime talibã. ''A única forma de lutarmos contra os talibãs é fechar suas fontes de armamento. Temos lutado contra eles (os talibãs), mas eles estão se tornando mais fortes a cada dia, com a adesão de terroristas de todo o mundo. Não há um equilíbrio entre nossas forças e a deles. Temos que interromper o fluxo de armas'', disse Abdullah Abdullah, ministro das Relações Exteriores da aliança, que controla apenas 5% do território afegão.

Outros países também se preparam para um possível conflito. Ontem, o Irã ordenou que as forças armadas bloqueassem os 900km de fronteira com o Afeganistão. Apesar das fortes críticas feitas aos atentados aos EUA, o governo iraniano ainda não assumiu posição pública diante da decisão americana de abrir fogo contra o Afeganistão, caso Bin Laden não seja entregue. No Tajiquistão, tropas russas estão em alerta, segundo a agência de notícias Interfax. A Rússia, no entanto, não confirmou a informação.

Anterior Próxima



E-MAILS E TELEFONES :: EXPEDIENTE
Copyright© 1995, 2001 ,Jornal do Brasil, Primeiro Jornal Brasileiro na Internet

 
Versão para imprimir   Enviar por e-mail