PARIS -
Um dos paradoxos do caso Osama Bin Laden é que o homem que lhe é mais hostil no Afeganistão, o mais decidido a botá-lo para fora de seu país, nunca recebeu apoio diplomática, ajuda militar ou sustentação financeira de Washington. E no entanto Ahmed Chah Massud, cuja morte após atentado sofrido há uma semana foi confirmada na sexta-feira, não economizou advertências sobre o perigo que a presença em território afegão do milionário saudita constituía.
Foi o que voltou a fazer durante sua viagem à Europa em maio último, frisando que seu país se transformara num imenso campo de treinamento de terroristas sob controle dos talibãs e denunciando o financiamento desses campos, através do Paquistão, pelos islamitas do mundo inteiro e fundações privadas do Golfo Pérsico e da Arábia Saudita.
Os Estados Unidos nunca lhe deram ouvidos. Pior ainda, apoiaram no início a ordem político-regiliosa dos talibãs, particularmente quando se implantou inicialmente em 1994 no Sul do país.
Petróleo - Este apoio explicava-se por três razões: o Irã, os oleodutos da Ásia Central e o Paquistão. ''Os Estados Unidos achavam que poderiam com facilidade pressionar os talibãs [fundamentalistas sunitas extremamente hostis ao regime islâmico xiita de Teerã]para que servissem a sua política de contenção do Irã'', afirma Kacem Fazelly, pesquisador afegão refugiado na França. ''E também queriam evitar a todo custo que os oleodutos para exportação de petróleo e gás da Ásia central atravessassem o Irã.''
Desse modo, o Afeganistão permitia às empresas americanas contornar o território iraniano; para isto, os talibãs teriam de pôr fim à situação de caos que prevalecia no Afeganistão. Soma-se a isto a influência do Paquistão, aliado de Washington, que nunca aceitou que Massud tomasse o poder e restabelecesse um Estado afegão, considerado prejudicial aos interesses vitais de Islamabad.
Naquela época, a política americana foi denunciada por todos os especialistas ocidentais em Ásia central. A pesquisadora Martha Brill Olcott considera-a ''arrogante, obscura, ingênua e perigosa''. Seja como for, cheira fortemente a petróleo, como frisa o especialista Robert Kaplan: ''Naquela época, os Estados Unidos, muito apegados à idéia do oleoduto Baku-Karachi, apesar da queda dos preços do petróleo e da recusa das companhias petrolíferas de investir, continuavam acreditando que os oledutos poderiam ser construídos sem a menor visão estratégica da região e sem que os conflitos em andamento fossem resolvidos.'' Mais inacreditável ainda, apesar de sua política de repressão sistemática de tudo que se afaste da charia, a lei islâmica, das medidas de repressão das mulheres afegãs, o regime dos talibãs era considerado pelo Departamento de Estado como... pró-ocidental.
Bênção revista - Só com a instalação definitiva de Bin Laden no Afeganistão, a partir de 1996, Washington começa pouco a pouco a rever sua política. Movimento especificamente afegão mas cria dos militares paquistaneses, os talibãs começaram portanto sob a bênção dos Estados Unidos. Mesmo depois dos primeiros atentados atribuídos ao milionário islamita, Washington absteve-se de pressionar os aliados naturais dos ''estudantes da verdade'', como são chamados os talibãs - a Arábia Saudita e o establishment militar paquistanês.
Os Estados Unidos só se decidiriam a reagir em 1998, após os atentados contra as embaixadas americanas no Quênia e na Nigéria, decidindo-se a bombardear um campo de treinamento no Leste afegão. Viriam também a punir o Afeganistão como principais inspiradores do embargo decidido pelo Conselho de Segurança da ONU, e que vigora desde 19 de janeiro deste ano, com o objetivo de conseguir a expulsão de Bin Laden.
Só que já era tarde demais. As milícias islâmicas árabes comandadas por Bin Laden já constituíram um Estado dentro do Estado, ou antes no embrião de Estado afegão. Inicialmente recebido como hóspede pelo mulá Omar, a autoridade religiosa máxima dos afegãos, em virtude de um velho costume tribal, o milionário saudita tornou-se o mais próximo assessor do chefe dos talibãs. Há boatos, aparentemente falsos, de que seria seu genro. Não parece provável, portanto, que os talibãs venham agora a expulsá-lo facilamente, ainda que fosse este seu desejo. ''Não há a menor hipótese de entregar aos americanos este herói da guerra de resistência às tropas soviéticas'', dizia-se em Cabul antes dos atentados da terça-feira nos Estados Unidos.
Agora os talibãs afirmam que o extraditariam se lhes forem apresentadas provas de sua culpabilidade. ''Missão impossível'', comenta o professor Fazelly, ''pois tais provas não seriam as que vigoram no direito internacional, mas as da lei islâmica.''