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Uma suíça boa de briga
Procuradora que coleciona vitórias convence Itália a entregar padre de Ruanda
ARAUJO NETTO
Correspondente
ROMA -
O governo italiano declara-se finalmente decidido a entregar o padre católico ruandês Atanásio Sumba Bura para ser processado por crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional das Nações Unidas para Crimes em Ruanda, que se reúne na Tanzânia, país da África Central. Os ministros do Exterior, da Justiça e da Economia propuseram o encaminhamento ao Parlamento do decreto que autoriza a prisão do sacerdote africano, acusado de genocídio em seu país e que vive em Florença protegido pelo Vaticano.
É outra batalha ganha pela tenacidade da magistrada suíça Carla Del Ponte, procuradora do Tribunal da ONU, que no cantão Ticino e em Lugano, cidade em que nasceu e começou sua carreira há mais de 20 anos, ainda hoje é chamada ''Carlina la peste'' - uma senhora baixinha (1,50m de altura) de 57 anos, muito míope, cabelos louros. À primeira vista mais parecida a uma diretora de escola pública do que a uma implacável e tinhosa inimiga de mafiosos, políticos corruptos, torturadores e criminosos de guerra.
Uma suíça de briga, na qual o juiz-mártir da luta contra todas as máfias - Giovanni Falcone - viu ''a personificação da pertinácia''. Mas que para Slobodan Milosevic, ex-tirano da Iugoslávia e da Sérvia, seria apenas a ''Nova Gestapo'' - principalmente depois que a Iugoslávia decidiu entregá-lo ao tribunal da ONU. Mais ressentidos, mafiosos sicilianos e russos e os narcotraficantes colombianos não se contém quando se referem à magistrada. Para toda essa ''elite'' da delinqüência maior, Del Ponte deve ser tratada apenas como ''La Puttana''.
Anjo vingador - Os resultados que alcançou à frente de processos que se tornaram notícia em todo o mundo (como os da ''Pizza connection'' e do ''Yeltsingate'', que demonstraram a corrupção do ex-presidente russo Boris Yeltsin e de sua filha mais velha) valeram-lhe um reconhecimento poucas vezes dispensado por um jornal como o Guardian de Londres, para quem seria ''um anjo vingador''.
Poucas horas antes de saber que o governo italiano finalmente decidiu entregar o padre Sumba Bura, acusado de genocídio e crime contra a humanidade, praticado em 1994 contra pelo menos duas mil pessoas dentro da igreja em que era pároco numa pequena cidade de Ruanda, a promotora lançou uma ameaça que parece ter convencido definitivamente Berlusconi (que teve, aliás, suas contas investigadas por ela). ''Não gostaria de ver-me obrigada a informar ao Conselho de Segurança da ONU que a Itália é um país que não colabora conosco do Tribunal Penal Internacional'', disse a suíça.
A juíza, que neste momento recarrega as baterias em Cecina, na Toscana, para a primeira audiência contra Milosevic, é uma mulher que se reconhece cheia de defeitos: grande fumante, detesta falar da vida privada e não resiste à tentação de devassar as contas secretas de políticos e empresários pouco sérios. Mas que se sente muito à vontade para dizer que nunca serviu a nada ou ninguém que fosse contra as leis - e considera o seu trabalho nem mais nem menos perigoso que tantos outros.
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