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O conto sem fadas de Cecília Bolocco
Mulher de Menem defende o marido preso e assume papel político mas nega que aspire ser a nova Evita argentina
MÁRCIA CARMO
BUENOS AIRES -
Quando a reunião termina e os convidados deixam aquela sala, ela se admira no espelho. Pensando que está sozinha, faz caras e bocas, ajeita as madeixas louras, que ganharam novas luzes, e ri. Satisfeita com sua própria imagem. O sorriso é de vitoriosa. Talvez de apaixonada. Ou, simplesmente, de uma mulher em campanha presidencial para seu marido preso. A ex-miss-universo Cecília Bolocco de Menem, de 36 anos, dona de formas curvilíneas, acaba de reunir-se com seu conterrâneo, o presidenciável Joaquín Lavin, prefeito de Santiago do Chile, e sua mulher Maria Estela.
Vestida de terninho cinza, com calça comprida bem justa, ela os recebeu com um largo sorriso, uma aliança finíssima na mão esquerda, um anel de pedras negras e brancas na direita e uma suave maquiagem. Nada mais. O encontro foi no domingo passado, no primeiro andar do Hotel Presidente, em Buenos Aires. O hotel, certamente pelo nome, passou a ser seu comitê de campanha desde que Menem - que não esconde de ninguém seu desejo de voltar ao poder em 2003 - foi posto em prisão domiciliar, no dia 7 de junho. Treze dias depois do casamento com Cecília. Desde então, ela passou a ser sua porta-voz. E ele seu ''amor'' ou ''Carlos, meu amor''.
Mais tarde, em entrevista ao Jornal do Brasil, Cecília disse que é no ''amor'' que encontra forças para enfrentar o desafio de viver com o marido preso. ''Graças a Deus, esta injusta e triste realidade só fortalece minha relação com Carlos, que sempre esteve baseada no amor'', afirma. ''Poder estar a seu lado é tudo o que preciso para sorrir para a vida. Só os sentimentos tem importância, o resto é circunstancial''. Cecília é uma romântica. Na entrevista, ela fala, várias vezes, do amor que nutre pelo presidente que governou a Argentina durante dez anos. Lamenta a existência do aborto, destaca o papel da família, fala da crise argentina, da sua admiração pela trajetória de Menem e não disfarça que, na sua opinião, ele seria a saída para os males que o país enfrenta hoje. ''Infelizmente hoje a Argentina vive uma grave crise econômica, política e social. Portanto, as medidas a serem tomadas devem ser urgentes''.
Paulo Coelho - Cecília responde ainda sobre sua amizade com Paulo Coelho - ''Com ele tenho a sorte de ter uma estreita amizade'' - da sua admiração por Jorge Amado - ''Ele nos aproximou magistralmente e com o realismo mágico da miséria'' - da vontade de ser mãe e da fama de que faz tudo para ser a Evita Perón deste século. O que, aliás, ela jura de pés juntos que não é verdade. Mas que seu discurso de preocupações sociais acaba confirmando: ''Todos queremos tirar os meninos das ruas, combater as drogas e evitar que nossas jovens transformem-se em mães solteiras. Ou, pior ainda, tenham o aborto como única saída''. Ela continua: ''Todos estes são apenas sintomas de graves doenças: a falta de amor e a degradação da família, que, como sempre, cai sobre as mulheres''.
Até pouco tempo, Cecília era quase o retrato da ex-mulher do presidente Juan Domingo Perón. Uma Evita alguns quilinhos mais magra. Mas com o mesmo guarda-roupa sofisticado e jóias espetaculares. Como a ex-primeira dama, que morreu aos 33 anos, em 1953, Cecília passou a usar cabelos presos, a repetir seus gestos e até o tom firme da sua voz.
Especialmente nos palanques que tem ocupado para defender a liberdade de Menem e condenar a pobreza, o desemprego e suas conseqüências. Mas diante das críticas, ela moderou nas jóias, nos modelitos e nos gestos. E passou a só usar cabelos soltos. Além de roupas mais apagadas. Como o terninho cinza daquele domingo. A senhora não quer mesmo ser como a Evita? ''Ninguém jamais poderá substituí-la''. Para Cecília, não passa de conspiração a informação - aliás, evidente - de que ela busca a imagem e semelhança da ex-primeira dama que conseguiu o voto feminino na Argentina, brigou com a burguesia e abriu as portas de hotéis e lugares de luxo para a plebe. ''Evita se entregou por inteiro à causa e não teve quem pudesse detê-la'', admira-se.
Discursos - Nestes últimos dois meses, Cecília já fez, pelo menos, dez discursos políticos em nome do marido. ''O que mais admiro nele? Sua sabedoria. Carlos possui o dom da paciência e sabe esperar a sua vez''. Sobre sua prisão, avalia: ''A prisão dele não é só injusta, mas infundada. Este caso (da venda ilegal de armas ao Equador e à Croácia) começou a ser investigado no governo dele. Essa é uma questão política e não jurídica''.
Acompanhada por um segurança e duas assessoras, no domingo passado, ela recebeu flores brancas do casal Lavín. E aproveitou para tentar conseguir apoio à sua campanha por Menem. ''Acho que você será o próximo presidente do Chile. Já soube das pesquisas de opinião que te dão 70% de apoio'', disse ela a Lavin. E ele que foi para o segundo turno com o atual presidente Ricardo Lagos, e continua presidenciável, desconversou: ''É cedo, ainda é cedo''. Quando perguntado se estava ali para apoiar o ex-presidente e pedir por sua liberdade, Joaquin Lavín fugiu de novo do tema: ''Esse é um assunto interno e da justiça. Viemos aqui porque Cecília é uma pessoa que adoramos e que neste momento de dor precisa do nosso apoio''. E certamente ele do apoio dela para fortalecer sua plataforma de campanha à sucessão de Lagos. Cecília é uma das pessoas mais populares do Chile. Tão conhecida como Xuxa e Angélica no Brasil. A ex-miss não esconde sua admiração pelo ex-ditador chileno Augusto Pinochet.
O sonho de Cecília é ter um filho com Menem, que aprova a idéia. ''Não desistiremos desta luta. Menem transformou a Argentina. Foi eleito e reeleito pelo seu povo. Ele é um grande líder e merece todo respeito'', afirma. Mas e o bebê? Vem mesmo? ''A gente se casa para formar família. Mas não é uma escolha nossa, né? É de Deus''. E só Deus sabe como essa história, que já rendeu livros aqui e no Chile, terminará. ''O amor move montanhas'', diz Menem. Quem sabe?
Um caso de glamour e tristezas
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