Chama-se European Vision - Visão Européia -, mas poderia se chamar o Navio dos Ricos. Ancorado no Porto de Gênova, na sexta-feira deixará de ser só um enorme, altíssimo e branquíssimo transatlântico, construído para oferecer tranqüila navegação a multimilionários estressados com imagens de crianças morrendo de fome ou combatendo as guerras dos adultos. O European Vision será um luxuoso palácio e uma inexpugnável fortaleza para os chefes de Estado e de Governo de sete das grandes potências da terra.
O único que não poderá gozar do conforto e da segurança flutuante do navio ''European Vision'' será o presidente dos EUA, George W. Bush, que se sente mais seguro num porta-aviões americano, protegido por seus fuzileiros navais.
A preocupação dos anfitriões italianos de fazer de tornar o G-8 de Gênova uma página inesquecível na vida de cada um dos estadistas que dele participarão, transformou-se em obsessão para o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi. Nas últimas duas semanas ele já esteve três vezes em Gênova, inspecionando pessoalmente as maiores e menores coisas que vêm sendo feitas para que o encontro se faça realmente memorável.
Para que nada falte a bordo do ''European Vision'', Berlusconi continua praticando todo tipo de exagero. Ao primeiro-ministro britânico, Tony Blair; ao alemão Gehrard Schroeder; ao russo Vladimir Putin, ao presidente da França, Jacques Chirac, ao canadense Jean Chrétien, ao japonês Jumichiro Koizumi e ao presidente da Comissão Européia, Romano Prodi, nada pode faltar. Cada um deles foi consultado sobre a cor que preferiam nas suas suítes presidenciais. A todos eles foram oferecidos um treinador pessoal para orientar seus exercícios diários e uma hostess capaz de falar perfeitamente a língua de cada um deles. Ou simplesmente acompanhá-los ao cinema de bordo que nos três dias do G-8 exibirá todos os filmes italianos premiados com Oscars, de Fellini a Begnini. Os menus também serão personalizados: foram elaborados obedecendo as dietas e as preferências de cada chefe. O pessoal de bordo, a serviço dos 7 grandes, será formado por 711 pessoas. Lençóis, toalhas de banho, de rosto e de bidê, serão todos do mais imaculado linho. Os banheiros foram todos refeitos: com o melhor mármore de Carrara. Na mesa de toalete, os hóspedes encontrarão o que há de mais requintado como produto de perfumaria: os melhores sabonetes, loções, cremes e óleos hidratantes, dentifrícios e xampus. Obviamente todos grifados por famosos estilistas italianos.
Nas paredes das suítes, seus hóspedes poderão admirar obras de artistas italianos dos séculos 18 e 19, com pinturas e gravuras de Gênova, todos cedidos por empréstimo por colecionadores genoveses.
Para tornar impossível o grampo ou qualquer tipo de interferência externa nos telefonemas dos seus hóspedes, o governo italiano gastou cerca de US$ 3,5 milhões num sistema de comunicação.
Com a esperança de nunca mais ser esquecido pelos participantes do G-8, Berlusconi quis mostrar porque faz por merecer o título de homem mais rico da Itália, presenteando cada um de seus hóspedes com um escritório portátil, todo em couro, e uma suntuosa caixa de prata maciça que tanto poderá ser usada para guardar bons charutos ou as jóias das primeiras-damas - que foram aconselhadas a ficar em casa, sem se expor às ameaças criadas pelos contestadores da globalização.