Terminou à meia-noite de ontem a oitava eleição presidencial iraniana, depois de o fechamento das 37 mil seções eleitorais ser prorrogado por três vezes para que as urnas acolhessem um número recorde de votos desde a criação da república islâmica, em 1979. Pesquisas da agência de notícias estatal Irna estimam que 83% dos 42 milhões de eleitores do país compareceram às urnas.
O dado é a maior surpresa desta eleição, já que o vencedor parecia definido desde o primeiro dia da campanha: o aiatolá reformista Mohamed Katami, que se reelege prometendo conseguir nos próximos quatro anos o que tentou sem sucesso no primeiro mandato. Mesmo depois de ver a maioria das reformas promovidas nos últimos quatro anos serem desfeitas pelos conservadores, o povo decidiu renovar seu voto de confiança em Katami, empossando-o novamente.
A Irna aponta que Katami terá 74% dos votos, com o segundo candidato, o ministro do Trabalho Ahmad Tavakoli, ficando com 12%. Já o instituto de pesquisa americano Zogby International prevê uma vitória de 75% para Katami, contra 11% do conservador Tavakoli. Todos os outros oito candidatos têm votações de apenas um dígito. A Irna prevê que entre os iranianos votando no exterior a vantagem de Katami é ainda maior: os índices atribuem a Katami até 90% dos votos depositados nas embaixadas da Turcmênia, do Azerbaijão, da Quirguízia, do Cazaquistão, da Índia, do Paquistão e da Espanha.
Recado - Tanta atenção para o comparecimento às urnas acontece por uma simples razão: se Katami tivesse nesta eleição menos apoio popular que em 1997, seria um sinal de que sua forma de conduzir as reformas ia mal. Mas Katami chega ao fim da jornada eleitoral com nove pontos percentuais a mais do que teve em sua primeira eleição. Para completar, o número de eleitores aumentou em 7 milhões. É um recado claro aos conservadores.
Um dos primeiros a votar foi o líder supremo do país, o aiatolá Ali Kamenei, que exortou os iranianos a votarem maciçamente, mesmo sabendo que isto provavelmente significaria força para as reformas a que se opõe. Kamenei - que controla as principais instâncias de resistência às reformas, como o Judiciário e o Conselho de Guardiães - afirmou que ''todo voto depositado hoje é na verdade um voto pela república islâmica''.
A apuração começou imediatamente após o fechamento das urnas. A primeira previsão era de que a contagem estivesse concluída na noite de hoje. A prorrogação, contudo, pode fazer com que os resultados finais só sejam conhecidos amanhã. O ministro do Interior, Abbas Ahmadi, afirmou à emissora estatal de TV que o dia foi tranqüilo e a votação se desenrolou ''sem incidentes''. O Conselho de Guardiães, que anulou milhares de votos nas eleições parlamentares do ano passado, alertou para o perigo das irregularidades. Não houve sinais aparentes de fraude, embora muitos menores de 15 anos tenham tentado votar. Os maiores problemas se limitaram à grande quantidade de eleitores analfabetos que pediram que outra pessoa preenchesse a cédula com o nome de seu candidato.
Pelas reformas - A eleição em si era um retrato dos dois Irãs que se atritam: uma pequena confusão irrompeu na seção eleitoral instalada numa mesquita quando mulheres envergando o tradicional xador preto reivindicaram filas separadas para homens e mulheres. Outras, contudo, usando roupas mais modernas e curtas, cobrindo a cabeça com lenços e xales, reclamaram. ''Estamos votando exatamente porque queremos filas mistas'', respondeu Maryan, coberta por um xador estilizado e colorido. ''É claro que votarei em Katami'', disse ela à agência de notícias Reuters.
Outra parte do eleitorado - a metade abaixo dos 30 anos - também deixou claro sua escolha. ''Katami é bom para nós. Queremos ter uma vida boa, ficar com as garotas, não há nada de errado com isso'', explicou Ali, de 15 anos, votando pela primeira vez. ''Não queremos voltar ao passado''. Já Reza foi mais poético: ''Voto em Katami porque ele pôs um sorriso no rosto da gente'', disse ele, afirmando que em seus quatro anos de governo os jovens perderam o medo da rígida moral religiosa.