Para o sociólogo, escritor e jornalista peruano Hugo Neira, de 65 anos, os culpados pela crise política em seu país não são só figuras como Alberto Fujimori e Vladimiro Montesinos. O povo é um dos grandes responsáveis pelos últimos 15 anos de autoritarismo, grave crise financeira, desemprego e grandes escândalos de corrupção. Em seu último livro, El mal peruano 1990-2001 (O mal peruano 1990-2001), lançado há uma semana em Lima, o doutor em ciências políticas pela Sorbonne, que trabalhou no governo nacionalista de Juan Velasco Alvarado, critica a sociedade, chama a atenção para os efeitos da falta de consciência política e tenta responder ''por que os peruanos aceitam tiranos sorridentes''. Por telefone, do Taiti, onde vive há 11 anos, o premiado autor do livro Cuzco: tierra o muerte falou sobre política peruana e as eleições de hoje ao Jornal do Brasil.
- Fujimori era admirado até um determinado momento de seu governo. O que aconteceu?
- Em 1995, no início do segundo mandato, Fujimori - que teve êxito no modelo neoliberal e nas privatizações, com grande apoio popular - ordena a compra armas para os conflitos na fronteira com o Equador, e começam os grandes negócios entre a cúpula militar e Vladimiro Montesinos, principal funcionário do serviço de inteligência. O regime se corrompe com enormes negócios.
- Como são os negócios?
- Seis bilhões de dólares da privatização desapareceram, e o governo fazia compras desastrosas. Um avião russo que custava US$ 5 milhões, por exemplo, foi avaliado em US$ 35 milhões, e a maioria deles não voava. Havia uma enorme soma de dinheiro dentro do Estado a partir do serviço de inteligência, que - segundo informações dos próprios bancos - foi para contas na Suíça, Tailândia e Birmânia.
- Como Fujimori se aproveita desse dinheiro?
- A partir daí, o poder se converte em máfia. Fujimori começa a comprar congressistas, chefes militares, homens públicos, personalidades da televisão. Só se fica sabendo de tudo isso através dos vídeos de Montesinos. Fujimori não podia se retirar do governo, e teve que tentar um terceiro mandato, contra a lei.
- Por que ele não podia se retirar?
- Porque seu sucessor descobriria tudo isso. Uma máquina louca o leva à reeleição e aparece Alejandro Toledo, como a figura democrática que o enfrenta com as massas nas ruas e pede boicote no segundo turno. Não saberíamos de nada disso se não tivesse aparecido o primeiro vídeo, no dia 16 de setembro do ano passado, que mostra o terrível poder interno de Montesinos. Começa a crise política, uma espécie de revolução sem balas. Foram descobertos 1.700 vídeos, dos quais Fujimori levou 600 em malas para o Japão.
- Qual sua avaliação sobre os candidatos Alejandro Toledo e Alan García?
- García governou o país entre 1985 e 1990, e há muitas dúvidas sobre seu comportamento no governo. Quando era presidente, ele apoiou a primeira candidatura de Fujimori, pondo inclusive o serviço de inteligência a sua disposição. Se Vargas Llosa [então adversário de Fujimori]chegasse ao poder, iria descobrir as jogadas de García. Para ele era melhor El Chinito.
- Como seria García novamente na presidência?
- Estudos indicam que o fujimorismo não é só a questão de abuso de poder, mas tem também uma base social. Fujimori montou um aparato de apoio às classes C e D, o Fundo Nacional de Compensação e Desenvolvimento Social. Quase 37% do setor mais pobre ganhavam alimentos do governo de Fujimori. A expectativa popular não é pela democracia, mas pela ajuda do Estado. Alan García representa a continuação social do fujimorismo.
- E Toledo?
- Toledo representa um liberalismo que fala da inserção do Peru na economia mundial, mas esse discurso não chega às classes baixas. Toledo as seduz por ser cholo, índio, por se parecer com 95% da população. Se ganhar será o primeiro índio no poder eleito democraticamente.
- O que explica a alta votação de García no primeiro turno, mesmo com seu governo anterior mal visto?
- O nível baixíssimo de vocação política dos peruanos. Seis milhões de eleitores são jovens, que não se lembram do governo de García. Durante dez anos o Peru esteve totalmente despolitizado por falta de educação cívica. Além disso, Alan García é um extraordinário orador. A política não é só razão, mas também sedução, magia. García tenta não aparecer mais como o populista de 15 anos atrás. Ele prefere não discutir seu passado, diz que se equivocou e pede perdão. Isto é um pouco como acontece no Brasil.
- Há alguma explicação para a enorme quantidade de votos brancos e nulos prevista nas pesquisas?
- Há 26% ou 30% de votos brancos e nulos. Muitos deles vêm de fujimoristas, que votaram em Lourdes Flores Nano no primeiro turno. Ela tinha ''fujimoristas sem-vídeo'', como se costuma dizer, na sua equipe. Há outros fujimoristas que não querem votar em Toledo porque não perdoam seu papel na época da derrota de Fujimori.
- Há risco de fraudes nessas eleições?
- De maneira nenhuma. Valentin Paniagua [atual presidente], formou um gabinete com pessoas muito honestas para seu respeitoso governo de transição. Infelizmente, ele não tem legitimidade para continuar, e terá que entregar o poder, mas a opinião pública gostaria que ele ficasse no cargo. Tudo isso garante que haverá eleições limpas.