Fanático religioso ataca Vanderlei Cordeiro de Lima na maratona e mancha os Jogos, mas brasileiro é premiado pelo espírito esportivo
ATENAS -
De Spiridion Louis, vencedor em Atenas-1896 a Vanderlei Cordeiro, a história da maratona olímpica vai do nascimento ao vexame. Cento e oito anos depois de tudo começar pelas ruas de Marathon - dando origem ao nome da competição de longa distância -, o desfecho da Olimpíada de Atenas vai ficar na história como aquele em que um guerreiro do Brasil foi impedido de brigar pelo ouro por falha da segurança. Vanderlei Cordeiro, líder da prova, foi agarrado por um irlandês e terminou com a medalha de bronze.
Em reconhecimento, o Comitê Olímpico Internacional (COI) vai lhe dar a simbólica medalha Barão Pierre de Coubertin - concedida apenas uma vez antes, em Seul-1988, ao velejador austríaco Hubert Raudaschl, que abandonou a prova para salvar uma pessoa que caíra no mar. Porém, fica a dúvida: se não fosse agredido, o brasileiro ganharia a corrida?
- Não sei se venceria, mas o final seria diferente. Estava muito concentrado. Quem é maratonista sabe que, depois de parar, é difícil voltar a correr. Fico magoado porque poderia ser ouro ou prata - lamentou Vanderlei.
Bicampeão da maratona no Pan de Santo Domingo, ele mal sabia que também entraria para a historia olímpica. Ao disparar na liderança da maratona após o 15km, chegando a ficar 500m à frente do segundo pelotão, o atleta roubava a atenção do mundo inteiro. Todos queriam saber quem era aquele brasileiro franzino que deixava o renomado queniano Paul Tergat para trás. A diferença para os concorrentes já diminuía para 30s quando Cornelius Horam, de 57 anos, vestindo roupa tradicional da Irlanda, com as inscrições ''O pregador do Grand Prix. A realização da profecia de Israel, diz a Bíblia'', invadiu a rua. Abraçou Vanderlei e o jogou na calçada, fazendo-o perder cerca de 20 segundos. Facilitou a vida do italiano Steffano Baldini e do americano Meb Keflezighi, que passaram o brasileiro nos últimos quilômetros.
- Ainda bem que ele não estava com objeto cortante - suspirou o Vanderlei.
Preso após o incidente, Cornelius Horam explicou que o ato se tratava do ''derradeiro julgamento da humanidade''. As autoridades locais estão considerando o irlandês - que invadira também o GP de Fórmula 1 da Inglaterra, em 2003 - um louco.
- Não culpo a organização. Toda a Olimpíada correu normal. Foi uma única falha, justamente na maratona. Não dá para colocar um policial a cada metro. Nem tirar o contato com o público, que serve de apoio para o atleta e é o charme da prova - opinou Vanderlei.
O atleta estava feliz com o bronze, uma glória para quem foi 47º em Atlanta-96 e 72º em Sydney-2000. Quando cruzou a linha de chegada, comemorou imitando um aviãozinho no Estádio Panathinaiko.
- Minha felicidade é maior do que meu ódio - disse, satisfeito.
Bem diferente das autoridades dos Jogos, constrangidas. Enquanto o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) tinha o recurso no qual pedia o ouro também para Vanderlei indeferido, na cerimônia de entrega de medalhas o presidente do COI, Jacques Rogge, só se desculpava pelo incidente.
O COB ainda vai recorrer à Corte Arbitral do Esporte. Como alento, Vanderlei recebe a medalha Barão Pierre de Coubertin, destinada aos heróis do espírito olímpico, em solenidade em Lausanne (Suíça).