Ninguém aceita o rótulo. Também, pudera, ser jogador de segundo tempo é padecer no banco. Ou ganhar o mal escolhido apelido de curinga, aquele que segundo o Aurélio é capaz de substituir qualquer um. Definição correta, mas um tanto parcial. Para ter esse título, é preciso antes de tudo ser capaz de modificar sozinho o panorama de um jogo. Ter atributos de craque, como o drible derruba-zagueiro de Denílson, o elástico quase original de Roma, a arrancada consciente de Adriano ou ainda o jogo inteligente de Caio.
Todos eles grandes jogadores, em sua maioria com experiência no exterior e um salário para titular nenhum botar defeito. Só que, por circunstâncias variadas, têm rendido muito mais quando entram no segundo tempo de jogo. Convocado pela Seleção Brasileira para o jogo decisivo da próxima quarta contra a Bolívia, Denílson é a prova irrefutável da importância tática de quem entra no meio. Das 11 partidas que jogou nos últimos dois anos pelo time canarinho, foi escalado no início apenas uma vez, na desastrosa derrota para Honduras, por 2 a 0, na última Copa América. Seu drible encantador, quando executado desde o início, parecia óbvio. Nas outras dez ocasiões, entrou no decorrer da partida para decidir: estufou a rede contra o Peru e o Paraguai, e deixou companheiros como o supercraque Rivaldo na cara do gol outras vezes.
Indignação - ''Eu vou para dentro deles'', costuma dizer Denílson, quando entra em campo pela Seleção. É exatamente essa postura de craque que faz a diferença no meio dos jogos mais difíceis. Mas, fora de campo, é difícil aceitar a condição de opção de luxo no banco, ainda que no time tetracampeão do mundo. ''Sinceramente, por tudo o que passei nos últimos anos, me considero um titular só de estar fazendo parte do grupo, de estar na Seleção'', declara, humilde, após convocações. Após dribles e gols, no entanto, fica difícil conter a expectativa. ''Não preciso provar mais nada. Esse negócio de entrar no início ou depois é uma grande bobagem. Claro que é melhor ser titular'', já desabafou.
O talento Adriano tem apenas 19 anos, mas já vive o dilema do segundo tempo. Seus quatro gols com a camisa do Internazionale de Milão foram marcados em partidas que começou como reserva. ''No segundo tempo, entro num ritmo menor que o dos outros. É mais difícil, portanto é preciso fazer a diferença em pouco tempo. É uma questão de aproveitar as brechas dadas, para um dia ser titular.'' Ele já ganhou algumas chances. Contra o Brasov, semana retrasada, foi o destaque da vitória de seu time por 1 a 0. Mas, contra o Wisla Cracóvia, da Polônia, na última quarta, começou jogando, não acertou nada e foi substituído.
Numa escala menor, jogando no Flamengo em crise, o atacante Roma também tenta mostrar talento no pouco tempo disponível. ''Gosto de entrar para tentar mudar as coisas, sei que tenho essa capacidade. O primeiro toque na bola é fundamental para dar confiança. Quando o primeiro drible sai, os outros ficam fáceis'', dá a dica o jogador, que ajudou seu time a vencer o Corinthians por 2 a 1, pelo Brasileiro, entrando no segundo tempo. Pela Copa Mercosul, ganhou uma oportunidade de começar no time misto contra o Olimpia, no Paraguai, e fez de tudo - inclusive os dois gols.
Destino - Caio é o mais experiente da turma que carrega esse estigma. Aos 26 anos e hoje no Fluminense, o atacante já sofreu com o rótulo de reserva de luxo em vários clubes. ''As oportunidades não me são dadas por uma série de motivos. No Flamengo, tive algumas contusões que atrapalharam. No Flu, se eu estivesse jogando desde o início do Brasileiro, seria o titular. Nunca fui de reivindicar vaga, tento conquistá-la trabalhando.''
Todo treinador tem seu curinga, mas ninguém admite. O próprio técnico de Caio, no Fluminense, nega. ''Um bom jogador pode entrar e mudar a história de um jogo, mas também pode iniciar uma partida e ir bem o tempo todo. Uso os jogadores de acordo com a necessidade.'' Luiz Felipe Scolari, comandante da Seleção, assume a importância da posição exercida por Denílson, mas faz a sua ressalva. ''Se o jogador não estiver bem preparado fisicamente, entra devagar com o jogo em ritmo de correria. Aí, não adianta.'' Contra a Argentina, o treinador cogitou usar essa arma, mas, no caldeirão portenho, hesitou. O atacante entrou a cinco minutos do fim, e a Argentina venceu por 2 a 1. Craque de segundo tempo pode mudar jogo, mas não faz milagre.