Domingo, 4 de Novembro de 2001
Flu é o porto seguro de André Luís

RICARDO CALAZANS

Davi Zocoli
André Luís

André Luís em ação pelo Fluminense: simpatia da torcida faz prever longa temporada no tricolor

Nem o próprio André Luís esperava se firmar com tanta rapidez no Fluminense. O zagueiro de 22 anos chegou ao clube apenas na pré-temporada para o Campeonato Brasileiro, em julho, mas, não demorou muito, já havia vencido a briga com César por uma vaga no time titular tricolor. Caiu nas graças do técnico Oswaldo de Oliveira, e é visto com simpatia pela torcida do Fluminense - indícios de que sua permanência nas Laranjeiras pode ser longa. E um pouso seguro é tudo com que André Luís sempre sonhou na carreira.

Ele vinha conseguindo isso nos últimos dois anos, no Santos, mas um drible desconcertante o indispôs com a torcida. Em maio, nos descontos da semifinal do Campeonato Paulista, contra o Corinthians, foi entortado por Gil, que cruzou para Ricardinho fazer 2 a 1 e eliminar o Santos da decisão. André não teve mais paz na Vila Belmiro - por isso, preza tanto o bom ambiente nas Laranjeiras. ''Aqui é muito tranqüilo, muito sossegado. Não tenho do que reclamar'', conta.

Mas já teve. O começo da carreira do gaúcho André Luís não foi fácil. Mudava de time como quem fazia baldeação em linha de trem. Antes mesmo de se profissionalizar, já havia passado por oito clubes. Não que ele tenha espírito de andarilho. ''Eu tinha um procurador que não acertava um clube para mim. Eu não ficava fixo em lugar nenhum. Não gostava. Dei sorte apenas no último ano dos juniores, quando fui para o Santos. Consegui me firmar e fiquei por lá mesmo'', lembra o zagueiro.

Saudade - Antes disso, André Luís penou - em parte, ele reconhece, por conta própria. Há sete anos, jogava pelo Guarani de Bagé, sua cidade natal, quando fez teste e foi aprovado para treinar entre os juvenis do Grêmio. Mudou-se para Porto Alegre, mas logo em seguida mudou de idéia. Em sua primeira semana na capital gaúcha, a saudade de casa e dos oito irmãos (cinco mulheres e três homens) bateu forte. Por coincidência, o Guarani de Bagé foi a Porto Alegre fazer um amistoso com o Grêmio. André Luís inventou uma desculpa e se enfiou no ônibus com os ex-companheiros, de volta ao lar. ''Eu nunca tinha saído da minha cidade, a saudade foi muita. Disse para o pessoal do Bagé que havia sido liberado pelo Grêmio e peguei carona'', conta.

É claro que o arroubo do adolescente não foi visto com bons olhos pelos dirigentes do Grêmio. ''Pois é, depois disso fecharam as portas para mim'', diz. Sem mágoa. Ele sabe que rompantes de jogadores de futebol nunca são mesmo bem recebidos. O procurador que encontrou para organizar sua agenda, porém, tampouco ajudou-o. Após algum tempo mais jogando pelo Guarani, arranjou uma vaga no Juventude, de Caxias do Sul. Depois no Palmeiras, de São Paulo. E no Flamengo, aqui no Rio. E no desconhecido Nova Iguaçu. E no Paraná Clube. E no Corinthians. Tudo isso antes dos 20 anos.

Quando chegou ao Santos, já estava cansado de rodar. A boa colocação, o metro e 90cm e um chute potente de direita ajudaram a firmá-lo nos juniores do clube. Logo depois passou para a equipe profissional, e as coisas até que iam bem para ele. O drible de Gil, porém, mudou tudo. ''Escorreguei naquele lance, o Gil foi feliz e o Corinthians acabou na decisão. A torcida pegou no meu pé porque foi um lance já nos descontos, aos 48min do segundo tempo. Foi uma fatalidade, que poderia ter acontecido com qualquer um. Mas agora tenho que esquecer, ir em frente.''

Trabalho - No Fluminense, o nome de André Luís é trabalho. Em metade de suas declarações, diz que precisa seguir ''trabalhando'' para manter-se em campo. Foi assim que, diz, conseguiu uma vaga ao lado de Régis no time titular - para espanto próprio, mais facilmente do que imaginava. ''Pensava que teria mais trabalho'', reconhece, recitando mais uma vez sua palavra-chave particular. ''Agora só falta deixar um golzinho de falta, para aproveitar esse chute que eu tenho. Mas estou trabalhando para isso. Se Deus quiser, ainda marco um de falta nesse Brasileiro'', sonha André Luís, que já fez dois gols no campeonato.

Um novo gol, sem dúvida, melhoraria um pouco mais sua (boa) imagem no Fluminense. Para quem planeja ficar no Rio de Janeiro por um bom tempo, qualquer coisa ajuda. Há cinco meses na cidade, André Luís divide seu tempo entre os treinos nas Laranjeiras, passeios a shopping centers e das a churrascarias para matar a saudade da comida de sua Bagé natal.

Mas ele garante que o técnico Oswaldo de Oliveira não corre o risco de ficar na mão, se por um acaso, entre uma picanha e um gole de chimarrão, a saudade falar mais alto e André largar tudo para abraçar a família lá no Sul. ''Agora eu uso o telefone quando quero falar com a minha mãe'', conta. São os benefícios da tecnologia.

Nicola - Como André Luís, outro jogador vem aos poucos se encontrando no Fluminense. O goleiro iugoslavo Nicola, que até pouco tempo não havia tido sequer uma chance na equipe titular, entrou no segundo tempo da difícil partida contra o Vasco, domingo passado, e ontem disputou o primeiro Fla-Flu de sua vida. Adaptado ao clube, falta agora Nicola adaptar-se à língua portuguesa, que ele apenas arranha. ''Estamos afinados com ele. O português ainda não é seu forte, mas podemos dizer que já falamos a mesma língua'', brincou o zagueiro Régis.

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