Cartola é honesto. Mas se omite
Em época de CPI do futebol, jamais recaiu sobre o nome do advogado aposentado Mauro Ney Palmeiro, presidente do Botafogo há quase dois anos, qualquer acusação ou desconfiança. Uma raridade. Também nunca se ouviu ou viu alguém chamar o dirigente de vaidoso ou prepotente. Raridade número dois. Mas os predicados pouco comuns no meio não fazem de Mauro Ney um dirigente-padrão. Longe disso. O seu pecado é original. Mauro peca pela omissão.
Quando assumiu o Botafogo pela segunda vez, no ano 2000, Mauro Ney submergiu de forma proposital, abrindo espaço para o presidente do Conselho Deliberativo, Carlos Augusto Montenegro, que o indicou ao cargo, se tornar o presidente de fato e quase de direito - Montenegro não quis assumir o posto, alegando falta de tempo. Ao se deparar com assuntos importantes, Mauro Ney cansou de repetir a frase: ''Isso é com o Carlos Augusto''.
No futebol, o poder de Montenegro era notado com ainda mais facilidade. O representante dele em Caio Martins era o fiel escudeiro e vice de futebol Antônio Rodrigues, a quem Mauro Ney deu carta branca para fazer o que bem entendesse. O sucesso da administração fora e dentro do campo seria o perdão para o pecado do dirigente. Mas a pouco mais de um ano das eleições, o Botafogo está em crise. E seu presidente, em xeque.
Montenegro não assume a condição de primeiro-ministro alvinegro. ''Sempre estive à disposição para ajudar. Mas o sistema no Botafogo é presidencialista. Posso dar opiniões, mas quem decide é o presidente''. Já Mauro Ney até assume uma espécie divisão de poderes. Jamais a submersão. ''Montenegro é um grande botafoguense, que nos ajuda muito. E é claro que tem poder. É presidente do Conselho Deliberativo''.
Bate-boca - Oficialmente, ficaria o dito pelo não dito, não fosse o episódio da confusa saída de Antônio Rodrigues do clube, na semana passada. Mauro Ney conta que o mandou embora. Rodrigues nega. E ao descarregar forte munição contra o presidente, o ex-homem forte do futebol alvinegro detona o modo como Mauro Ney comanda - ou deixa de comandar - o clube. ''Ele teve vontade de me mandar embora. Mas não teve coragem para isso. Então, eu saí'', atacou, prosseguindo: ''Ele assumiu um cargo e tem de ser homem para cumprir o mandato. Há uma grande pessoa ao seu lado, que é o Montenegro, mas o Mauro Ney precisa dar mais a cara, mostrar que comanda''.
O presidente, assumidamente um homem de rompantes, respondeu. Atacou. Emergiu. Aproveitou a ocasião para fazer mea-culpa, reconhecer, em parte, a omissão, e prometer uma postura mais agressiva daqui por diante. ''Em certos momentos eu fui omisso no futebol mesmo. Deleguei poderes a um vice-presidente que me omitia fatos e me desmoralizava perante ao grupo do futebol. Só que ele me cobrava carta branca. E eu o dava. Mas acabei dando a ele um cartão vermelho'', conta. ''E se tirei poderes do principal vice-presidente, posso tirar de qualquer um. O regime aqui é presidencialista'', finaliza, em grande estilo.
Desmoralizações - O repentino e determinado rompante de Mauro Ney pode ser apenas mais um. Como os outros, acabou virando-se contra ele. No ano passado, por exemplo, o presidente resolveu passar um pito em Donizete, que reclamava de salários atrasados. A resposta do procurador do jogador foi uma tesoura voadora. ''Não vou nem discutir com o Mauro Ney, porque ele é um morto, não manda nada'', disse Luisinho, representante do atacante . O dirigente bufou, ficou revoltado, mas, no fim, se calou. E o jogador foi perdoado.
Algo parecido aconteceu com Váldson. O presidente saiu da sombra para anunciar que tinha pago salários atrasados. Váldson, revoltado, chamou Mauro Ney de ''mentiroso''. O jogador foi punido, pediu desculpas e foi perdoado. Mais recentemente, nova trapalhada. Telefonou para Carlos Alberto Torres na véspera do clássico contra o Flamengo, sondando o ex-treinador sobre uma possível intervenção no futebol do clube. O telefonema irritou o técnico Paulo Autuori, que chamou Mauro Ney de mau caráter. O Botafogo empatou com o Flamengo e Mauro Ney, no dia seguinte, submergiu mais uma vez. Não demitiu Paulo Autuori, que acabou pedindo para sair após o jogo seguinte - no mesma leva de Antônio Rodrigues.
Nesta semana, Mauro Ney voltou à cena. Negociou a contratação de Cacá e Neguete, do Atlético Mineiro, mas acabou voltando atrás porque os dirigentes do clube mineiro avisaram, quando a negociação já estava fechada, que queriam em troca o empréstimo do volante Carlos Alberto. O presidente pode nem ter sido culpado no episódio, como alega. Só que mais uma vez acabou ofendido, agora por Alexandre Kalil, presidente do Conselho Deliberativo do Atlético Mineiro: ''Desistir do acordo é palhaçada. Tenho respeito pelo Mauro Ney, mas daqui para frente não tem mais acordo verbal com ele''.
Amor ao clube - Rodrigues garante que, por conta desses episódios, o presidente não tem autoridade sobre os jogadores. ''Quando se promete e não se cumpre alguma coisa, sua imagem fica desgastada.'' Realmente por vezes falta pulso, falta atitude, mas em nenhum momento falta caráter ou honestidade. Há de se ressaltar que, aos 56 anos, casado e pai de de três filhos, Mauro Ney Palmeiro é um botafoguense histórico. Filho do presidente Ney Cidade Palmeiro, ex-jogador de basquete do clube, ex-presidente do STJD, ex-procurador do estado, Mauro Ney tem um irretocável passado alvinegro.
O dirigente ainda é um nome de consenso, tem a conduta elogiada por todos e só aceitou a presidência por amor ao clube - assim como fez em 1993, após a morte de Emil Pinheiro. E para não comprometer o que passou, já tomou uma decisão: não vai se arriscar novamente no cargo nas eleições do ano que vem, assim como Carlos Augusto Montenegro, que promete se afastar do Botafogo.
As dificuldades financeiras atravessadas pelo clube também não podem ser creditadas à sua administração - apesar de faltar projetos para o futuro. Amigo dos funcionários, Mauro Ney se emociona ao reconhecer que não está conseguindo pagá-los - alguns não recebem há três meses. ''Me disseram que o camisa 10 de um time de futebol é pagar em dia. Estou pagando e meu time está em 22° lugar. Aqui em General Severiano, os funcionários continuam trabalhando duro mesmo sem receber. E difícil encará-los''.