Sem companheiros como Pippen ou Rodman, o camisa 23 conviverá com jogadores com média de 3,6 anos na NBA
Solitária, nenhuma andorinha faz verão. Nem Michael Jordan conseguiu. Seja coadjuvado por Scottie Pippen ou Dennis Rodman, o astro precisou de pelo menos outros dois bons companheiros para levar o Chicago Bulls ao título da NBA. De volta à cena, aos 38 anos, após três na condição de aposentado, Jordan terá o desafio mais difícil da carreira: tirar do Washington Wizards a pecha de saco de pancadas (não-)oficial da liga profissional americana. Ano passado, o time ganhou somente 19 dos 82 jogos. Nas última 14 temporadas, só passou à segunda fase uma vez. Para completar, Jordan terá companheiros com média de 3,6 anos na NBA. O astro já disputou 13.
Jordan transformou os Bulls numa equipe vitoriosa, com seis títulos na década de 90. Não foi uma tarefa de um homem só. Ele teve a ajuda providencial de nomes como Pippen, um jogador que, se não aparecia muito, fazia o trabalho de conjunto - seguindo a filosofia do técnico Phil Jackson - como poucos. Nos Wizards, Jordan encontra quatro calouros entre os 16 colegas de time. O ala Kwame Brown, de 20 anos, tinha nascido havia um mês quando Jordan se sagrou campeão universitário, em 1982, por Carolina do Norte. Brown, a primeira opção no draft, o processo de seleção da liga, foi escolhido pessoalmente por Jordan. Os outros novatos são o armador Bobby Simmonns (21 anos) e os pivôs Brendan Haywood (22) e Etan Thomas (23).
Raio - Dos 16 jogadores que compõem os Wizards, com exceção de MJ (ou sir Air Jordan), apenas cinco tem experiência de mais de cinco anos de NBA. O mais veterano é Jordan. Depois dele, vem o ala-pivô Loy Vaught, com 11 temporadas. Outro rodado é também ala-pivô Christian Laettner, com nove campeonatos nas costas. Ele e Jordan dividiram o pódio olímpico na conquista da medalha de ouro em Barcelona-1992. Ou seja: sonhar com título é um tanto fora da realidade. Jordan sozinho, ainda mais depois de três anos longe das cestas, é pouco. O raio que caiu nos Bulls com a camisa 23 não produzirá nada além de clarões nos Wizards. Troféu? Nem Jordan pode.
Pode sim acabar com o jejum dos Wizards - o jejum dos playoffs. Para isso, será preciso ganhar mais que o dobro das partidas que venceu em 2000/2001. Na temporada passada, o time de Washington saiu-se vencedor em 19 jogos. A ida à segunda fase é garantida com pelo menos 40 vitórias. A estréia será em 30 de outubro, diante dos Knicks, no Madison Square Garden, em Nova York. Os fãs da NBA confiam que Jordan levará os Wizards aos playoffs, algo que aconteceu apenas uma vez com a equipe da capital americana desde 1987. Na página da liga da internet {www.nba.com}, 63% responderam que o astro terá sucesso na empreitada. Para 37%, nem Jordan dará jeito aos Wizards.
Promessa - Michael Jordan usou a camisa do Chicago Bulls por 1.109 vezes. Na nova casa, a primeira tarefa foi organizar o time. Como vice-presidente de operações, o mandachuva de todos os assuntos que envolvam a quadra desde o técnico à escolha dos jogadores, Jordan dedicou-se a formar um grupo que considera promissor. Ele disse, algumas vezes, que a equipe está sendo feita para as próximas temporadas. Não que Jordan tenha deixado no ar a intenção de ser campeão com os Wizards, mas pretende pelo menos ter um time com condições de brigar. Prova disso é o fato de os Wizards contarem com quatro calouros, todos promessas em suas universidades.
O técnico George Karl, do Milwaukee Bucks, vê como o grande desafio de Jordan ter que lidar com um time jovem, que terá na luta e não na técnica a principal arma. ''Jordan teve seis anos especiais, em que tudo deu certo. Agora, ele terá outro perfil pela frente'', disse Karl ao jornal Washington Post, citando o hexacampeonato do astro com os Bulls. Dois jogos já estão despertando as atenções: os duelos com o Chicago (4 de janeiro) e o Los Angeles Lakers (2 de fevereiro). O primeiro é o time onde Jordan sempre brilhou. O segundo põe os Wizards à frente do atual campeão, treinado por Phil Jackson, comandante de Jordan nos Bulls.
As tevês americanas iniciaram uma renegociação com a NBA sobre o calendário dos jogos que serão transmitidos. O efeito Jordan fez das partidas dos Wizards um mina de ouro - e de audiência. Antes de o astro anunciar o fim da aposentadoria, nenhum confronto do time de Washington estava previsto para ser televisionado. Agora, as emissoras que detêm os direitos - entre elas, as top NBC e Turner - querem transmitir 25 jogos, sendo 11 para todos os Estados Unidos.