Domingo, 3 de Junho de 2001
Brasileiros da neve

Atletas tupiniquins são estrelas dos picos sul-americanos

TULIO BRANDÃO

Antonio Lacerda
Isabel

Enquanto não viaja, Isabel tem de treinar numa cama elástica

Isabel Clark tem treinado diariamente saltos com seu snowboard. No lugar de calças e casacões, short e um top curto de verão. Ela sonha com a neve farta do Chile e da Argentina, países que abrirão pistas para a temporada de esqui este mês, mas enquanto não viaja se contenta com a cama elástica da casa de uma amiga no Leblon. É nesse esquema de improviso e muita determinação que os esportes de inverno estão crescendo sem parar no Brasil, a despeito do aumento do dólar inibir viagens aos cantos nevados.

No snowboard, um esporte criado há poucas décadas, o brasileiro vai melhor que o esperado. Isabel, 24, e o paulista Ricardo Moruzzi, 22, são os melhores da América do Sul, mesmo competindo contra chilenos e argentinos em suas terras fartas de flocos de neve durante o inverno. Os dois têm chances reais de representar o país pela primeira vez nos Jogos Olímpicos de Inverno, em Salt Lake City, no início do ano que vem. No esqui, mais tradicional, o país também deve ter representantes.

Grana - Não fosse o dólar, que jogou água na neve de muito esquiador e snowboarder desde que saiu do controle cambial imposto pelo Plano Real, o Brasil estaria ainda melhor. Em 1994, 45 mil brasileiros visitaram estações de esqui. A previsão para este ano é de 30 mil. As competições, porém, não esconderam o crescimento do esporte. ''Em 1986, inscrevemos apenas 20 atletas no primeiro Campeonato Brasileiro de esqui, em Las Leñas, na Argentina. Este ano a previsão é de cerca de 100. No snowboard, a força é ainda maior. A primeira edição foi realizada em 1995, com 25 participantes. Agora esperamos 120'', informa o secretário geral da Associação Brasileira de Ski e Snowboard (ABSS), Sylvio Monti.

Engana-se quem pensa que os competidores são milionários dispostos a gastar a fortuna da família. O Campeonato Brasileiro, válido como etapa da Copa Continental, distribui US$ 20 mil em prêmios (US$ 5 mil para o vencedor), dinheiro suficiente para ficar um bom tempo viajando pela neve. Além disso, todos os atletas cadastrados na Federação Internacional de Ski e Snowboard (FIS) têm descontos especiais. ''Pagamos apenas US$ 45 de diárias'', explica Moruzzi. Segundo Monti, a semana de um iniciante numa estação de esqui sul-americana, com tudo pago, custa US$ 1.100.

Jeitinho - Na competição, a premiação pode recompensar, mas nos treinos o que vale é o jeitinho brasileiro. ''Se você gosta mesmo do esporte, faz qualquer negócio para estar praticando sempre. Dou aula em estação de esqui, já fiquei de graça na casa dos outros e não ligo muito para conforto. Só quero estar na neve'', diz Isabel, filha típica da classe média carioca, que vive economizando grana para poder fazer suas viagens.

O Brasil já descobriu essa possibilidade de preços em conta. Bom para os eventos, que contarão com competidores de todos os cantos. ''Este ano, há atletas de São Paulo, Rio, Espírito Santo, Minas Gerais, Maranhão, Ceará e Rio Grande do Norte. Até gente que faz sandboard nas dunas do Nordeste está entrando na onda da neve'', informa Monti. A indústria da moda brasileira também vem se rendendo aos esportes de inverno. ''Temos várias marcas criadas para o público de snowboard e esqui no país e outras que vieram do surfe e criaram linhas para a neve.''

Temporada - O Brasil vai saber na temporada sul-americana se vai aos Jogos de Inverno de Salt Lake City. No snowboard, as competições começam na primeira semana de julho, com o Campeonato Argentino de Snowboard em Chapelco. Na quarta semana, é a vez do Brasileiro, em Valle Nevado, no Chile. O Chileno será na última semana de agosto, em Pucon. E, por fim, a Copa do Mundo na primeira semana de setembro, em Valle Nevado, decisiva para as pretensões de Isabel e Moruzzi.

No esqui, as chances ficam centradas nos paulistas Ricardo Kawamura e Mirella Arnhold. Durante o mês de agosto e na primeira semana de setembro, serão disputadas seis etapas da Copa Sul-Americana de esqui, em estações da Argentina e Chile. Quem precisa de um empurrão para começar ou para competir, pode dar uma olhada nas clínicas do esporte desenvolvidas pela ABSS, no site da entidade: www.abss.org.br.

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