A frase ''Craque o Flamengo faz em casa'' é usada com freqüência pelos cartolas rubro-negros. Ela tem muito de verdade, mas tem igualmente seu lado perverso, que pode vir à tona no segundo semestre. O presidente Edmundo Santos Silva anunciou que pretende reforçar o clube para o Campeonato Brasileiro preferencialmente com pratas da casa. Uma solução sem dúvida barata, mas que pode custar caro ao clube - e à carreira das jovens promessas rubro-negras.
No dia seguinte ao tricampeonato estadual, o técnico Zagallo pediu reforços para o segundo semestre. O experiente Edílson deu um tempo nas comemorações para lembrar que o Campeonato Brasileiro é muitas vezes mais difícil do que o Estadual, conquistado domingo passado com sete pratas da casa em campo. Edmundo, porém, deixou claro que vai procurar soluções para as carências da equipe nas divisões de base. O que pode ser um perigo.
''Depende do jogador. Eu entrei na fogueira no início do ano e acho que me saí bem'', avalia o lateral-esquerdo Cássio, 21 anos, eleito um dos melhores do Estadual pelo Jornal do Brasil esta semana. Mas seu companheiro de defesa Juan já passou por maus bocados. Em 1997, foi promovido, ainda com 17 anos, ao time profissional. Destacou-se em alguns jogos, foi mal em outros, sofreu com as críticas e as vaias, voltou para os juniores e, ao retornar aos profissionais, em 1999, era outro zagueiro.
Superação - ''O Brasileiro de 1997 foi um sofrimento. Ficava balançado com as críticas. Algumas pessoas diziam que era errado eu subir tão cedo. Por outro lado, foi um aprendizado. Hoje sei que todo jogador está sujeito a altos e baixos'', conta Juan, que se firmou na zaga do Flamengo, já foi convocado para a Seleção e sonha com a Copa do Mundo.
Talvez por ser bem protegido - Gilmar Rinaldi é seu procurador e tem também uma assessoria de imprensa particular - Juan tenha escapado de fritura precoce. Em 1985, com a idade que o zagueiro tem hoje, o meia Gilmar Popoca já havia conquistado um Mundial (de juniores, em 1983, na Seleção que também trazia Bebeto, Geovani e outros), uma medalha olímpica (de prata, em Los Angeles, em 1984) e brilhava como camisa 10 da Gávea. Aos 36 anos, o ex-prata da casa lamenta não ter tido a mesma orientação de Juan. Mas também responsabiliza o Flamengo por seu ostracismo. ''O mais importante para um jogador é ter alguém de confiança trabalhando com ele. Meu pai, que cuidava dos meus interesses, não era do meio e foi envolvido por dirigentes que se diziam meus amigos, mas só estavam interessados no lucro que eu poderia render.''
Gilmar conta que se recusou a fazer parte de uma transação e pagou caro. ''Jogador é mercadoria. Quem não tem empresário para jogar com essas pessoas interesseiras se dá mal. Briguei com a diretoria em 1987 e fui marginalizado. Acabei na Ponte Preta, que não pagou o Flamengo pelo meu passe. Fiquei preso ao clube, sem jogar na Gávea nem poder me transferir. Passei sete meses sem salário por causa disso.''
Frustração - O meia Pintinho vive situação idêntica. Em dezembro de 1989, os sócios do Flamengo receberam cartão de Natal com dizeres premonitórios: ''Pintinho. O maior goleador do Flamengo em 89. O Galinho da próxima década.'' O clube apostava nele como sucessor de Zico. O ídolo-mor dos rubro-negros chegou a ritualizar essa esperança no início de 1990: em vez de pendurar as chuteiras, entregou-as ao meia-direita, então com 14 anos. Só que até hoje, aos 25 anos, Pintinho não estreou como profissional pelo Flamengo.
Desde que foi profissionalizado, em 1996, recebeu pouca atenção do clube, que já o emprestou para o Ceará (96), o Valencia, da Venezuela (97 e 98), o Nacional, de Amazonas (99), o Moto Clube, do Maranhão (2000), e o Volta Redonda, pelo qual disputou o último Estadual. ''Fui artilheiro e campeão pelo Ceará, Valencia e Nacional, mas sempre que volto ao Flamengo é como se não fizesse diferença. Não me dão nem chance de treinar entre os profissionais. Mas também não me dão meu passe. Ser jogador do Flamengo só é bom para quem joga'', reclama o meia, morador de Nova Iguaçu, que na próxima terça-feira irá à Gávea pedir a liberação do passe. Sem muita esperança. ''Há cinco anos eu peço e nunca me atendem.''
Outras vezes, jogadores que o clube lançou foram vendidos inesperadamente. A geração de Marcelinho, Paulo Nunes e Djalminha, campeã brasileira em 1992, dispersou-se antes de eles se firmarem. Os três viraram ídolos no Corinthians (Marcelinho), Grêmio e Palmeiras (Paulo Nunes) e Deportivo La Coruña (Djalminha), apesar dos problemas de indisciplina, que já apresentavam no Flamengo. ''Mas só vendi porque o clube precisava de dinheiro. Ninguém vende craque porque quer'', explica o ex-presidente Luís Augusto Velloso.
A frase - Cunhada na euforia da era Zico - que também foi de Júnior, Adílio, Júlio César, Jaime, Cantarelli e precedeu a de Leandro, Andrade, Mozer e Tita -, a frase ''craque o Flamengo faz em casa'' ainda tem conotação mitológica na Gávea. É apostando nela que Edmundo Santos Silva conta em pescar reforços para o Brasileiro. O lateral-esquerdo Anderson, de 19 anos, o meia-direita Andrezinho, 19, anos - que estão na Seleção que irá ao Mundial Sub-20 -, e o meia-esquerda Nélio, 17, devem ser profissionalizados.
O supervisor de futebol amador George Helal garante que estão preparados. ''Eles recebem acompanhamento psicológico para isso'', disse o dirigente, que teme que aconteça com esses garotos o mesmo que houve com Adriano. Revelado no Brasileiro do ano passado, com apenas 18 anos foi saudado como craque e chegou à Seleção tão rapidamente quanto seu futebol sumiu. ''Mas esse não vai se queimar nunca, porque é craque.'' Gilmar alerta: '' ''A fama, quando vem rapidamente, pode ser prejudicial.''