Num domingo qualquer de 2003 ou 2004, sem direito a aviso prévio, jogo de despedida, lenços brancos, Romário vai parar de jogar futebol. Sem choro nem vela. ''Mas ninguém vai me parar antes do tempo. Vou parar quando começar a sentir dentro de campo que não dá mais. Mas não quero despedida. Pra quê?'' Até lá, bem ao seu estilo de rei da autoconfiança, o atacante faz planos para continuar em São Januário, mesmo dando de ombros se é querido ou não pelos vascaínos. E nem de longe se sente ameaçado por Washington ou outro qualquer concorrente no ataque na Seleção Brasileira. ''Que dia é a convocação para o jogo contra o Uruguai? 15 de junho? Estarei lá'', garante Romário, que pela primeira vez, apesar da assumida fidelidade a Eurico Miranda, levanta a voz para pregar o fim da censura em São Januário. ''O Vasco tem de ter a consciência de que a relação com a imprensa precisa mudar. Para o bem do clube.''
Romário falou, e muito, na noite de sexta-feira ao Jornal do Brasil - ainda que preferisse o recolhimento de quem perdeu. ''Falar o quê? O Vasco não foi campeão, eu fiquei de fora mais uma vez de uma decisão, não adianta ficar dando explicação.''
Mesmo porque apresentar justificativas nunca foi do seu feitio. Ele assume o ônus e pronto. Foi isso que Romário fez em mais de uma hora de conversa, depois de se exercitar na piscina do Hotel Othon, em Copacabana, e enquanto se submetia a tratamento com o amigo e fisioterapeuta Zé Colméia. ''Já estou clinicamente curado. O que me atrapalhou foi querer treinar para jogar contra o Flamengo. Acabei sentindo. Agora, sem pressa, no máximo até sexta-feira estarei no campo'', disse.
Flamengo - O Flamengo surge sempre no caminho. Romário sabe que a desconfiança dos torcedores do Vasco em relação a ele aumentou depois de mais uma vez não enfrentar o rival numa decisão. ''Problema deles. Eles podem pensar e falar o que quiserem. Têm esse direito. Só não podem é tocar em mim.''
Mais do que um adversário, uma coincidência. O que leva Romário a compreender o pé atrás dos vascaínos. Nos quatro anos consecutivos que uma lesão na panturrilha o tirou de combate o Flamengo está presente. ''Na Copa de 98, eu estava no Flamengo, assim como na decisão de 99. E em 2000 e 2001, era adversário e acabei não jogando. Mas é mesmo só uma coincidência'', garante. Migué é que não haveria de ser, ele afirma com a veemência própria de quem não admite discussão. ''Quem me conhece sabe que eu não sou de fugir do pau. Ainda mais eu, que faço qualquer coisa para jogar bola.''
Joga tanto, insiste em ser escalado mesmo contra adversários fracos, em partidas que não valem nada, que acaba forçando a musculatura e estimulando as lesões na famosa panturrilha direita. ''Mão tem nada a ver. Até porque as lesões foram diferentes. E eu quero jogar muito. Estou com 35 anos, me restam poucos anos pela frente na carreira, dois ou três. Então eu aproveito para entrar em campo o máximo de vezes possível. Até para compensar as vezes que fico de fora quando estou machucado.''
Sangue! sangue! - A lógica de Romário é curta e seca. Não admite contestação. Quando o assunto então é a desconfiança dos vascaínos de que ele seja torcedor do Flamengo, o argumento vem de bate-pronto. ''Sou América, já falei. E de ir para a arquibancada do Maracanã xingar os jogadores'', conta.
Arquibancada? Logo ele que não se cansa de dizer que não gosta de assistir a 22 homens correndo atrás da bola. ''Era criança, meu pai me levava. Dos 10 aos 15 anos ia a todo jogo do América no Maracanã.'' Com algum esforço, para provar que está falando a verdade, Romário escalou o seu América de meados dos anos 70. ''O goleiro era o Rogério. Tinha o Uchoa na direita, o lateral-esquerdo era o Álvaro. Ivo, Bráulio. No ataque, tinha um tal de César. E o Luisinho Tombo...'' Mais Romário não disse. ''Também, você quer o quê? Eu não lembro nem o time do Vasco de três meses atrás!''
É verdade mesmo que Romário não gosta de ver futebol. Pela TV, então, passa longe - exceção para o primeiro jogo da decisão, em que o Vasco venceu o Flamengo por 2 a 1. No segundo jogo foi ao Maracanã, se instalou numa cabine de rádio. ''Mas depois que o Edílson fez o segundo gol do Flamengo, desci para o vestiário. Não agüentei mais ver o jogo'', disse. No terceiro, aquele do Petkovic de falta, Romário se mandou. ''Não tinha mais nada que fazer lá'', disse. Como não tinha nada para fazer em Buenos Aires, onde o Vasco foi eliminado da Libertadores pelo Boca Juniors. ''Cheguei a pensar em viajar. Não acredito nesse negócio de dar força'', encerrou.
Noitada - Mas Romário descobriu um jeito de ficar em frente da telinha para ver futebol. O fuso horário do Japão, onde a Seleção Brasileira disputa a Copa das Confederações, veio mesmo a calhar - cinco da matina, exatamente quando Romário chega das boates e das noitadas do Rio. ''Ás cinco vou ver todos os jogos. É a hora que eu estou chegando. Só não vi o jogo todo contra Camarões porque o primeiro tempo foi muito ruim. Me deu sono.''
A noite parece ser mesmo pequena para Romário. Ele não sai da ''pista'' - a maneira de dizer onde se diverte. Ainda mais quando lê nos jornais que foi visto na boate tal, quando deveria estar fazendo tratamento. ''Saio direto e vou continuar saindo. Agora mesmo, depois que terminar o tratamento, vou para a pista. Dançar faz bem'', disse Romário, na sexta-feira à noite.
Romário não fica nunca na defensiva. Tem sempre a resposta pronta. A não ser quando o assunto é dinheiro, pão-duro assumido que é no dia-a-dia (anda sempre sem dinheiro no bolso). O empréstimo que fez ao Vasco, para pagamento dos salários atrasados dos companheiros, não passa de ''história'', segundo suas palavras. ''Até porque não tenho essa grana toda. Meu dinheiro está preso com o Flamengo.''
Romário aproveita para cobrar a dívida que diz já ter ganho na Justiça do Trabalho. Segundo as contas do atacante, é muito dinheiro que o Flamengo vai ter de pagar-lhe um dia. ''Em dólares são 4,2 milhões. E sete milhões de reais. Com o dólar subindo desse jeito, acho melhor o Flamengo me pagar logo.''