Em virtude de despacho proferido ontem pelo juiz trabalhista Roque Lucarelli, da 41ª Vara de Conciliação e Julgamento do Rio de Janeiro, a Confederação Brasileira de Futebol foi obrigada a expedir o atestado liberatório do jogador Juninho Pernambucano e enviá-lo à Federação Francesa de Futebol, para que ele possa atuar no Lyon, clube pelo qual assinou um contrato de cinco anos. Além do despacho favorável, o juiz fez duas advertências. Caso a CBF não cumpra a determinação até segunda-feira, será obrigada a pagar uma multa diária no valor de 1/30 do salário que Juninho estaria recebendo no clube francês. Já o presidente Ricardo Teixeira, que está no Japão com a Seleção Brasileira, pode responder por crime de desobediência judicial.
Ontem, a advogada do jogador, Gislaine Nunes, acompanhada de um oficial de justiça, esteve na sede da CBF e entregou o ofício do juiz ao presidente em exercício, Sebastião Bastos Neto. Este, por sua vez, remeteu o documento ao departamento jurídico da entidade - para dar um parecer -, que encaminharia imediatamente ao departamento de registros, órgão responsável pela a expedição do atestado liberatório. ''A CBF não vem tratando o assunto com seriedade. Caso o atestado não chegue à Federação francesa na segunda-feira, vou fazer valer o despacho do juiz e muita gente vai responder por isso'', alertou a advogada. O assessor jurídico da CBF, Valed Perry, declarou que o atestado não foi enviado ontem por problemas burocráticos, mas que isso será feito na segunda-feira.
Impasse - No entanto, a situação pode ser mais complicada de se resolver. Segundo o jurista Álvaro Mello, no momento em que uma questão judicial envolvendo o passe tem como parte um clube estrangeiro, não cabe à CBF resolver. ''O caso do Juninho é um problema para a Fifa resolver, pois a questão envolve o Vasco e o Lyon. Na Fifa, é proibida a concessão de atestado liberatório para um atleta que esteja em litígio e o caso não é mais da alçada da CBF. Acho que o Juninho tem de deixar a CBF de lado e procurar resolver sua situação em âmbito internacional'', diz.
O meia Juninho, após brigar judicialmente desde o início do ano contra o Vasco - sua última partida foi no dia 18 de janeiro, na Copa Havelange -, conseguiu o passe livre pelo atraso de mais de três meses no pagamento dos salários e do Fundo de Garantia e assinou o contrato com o Lyon. Mas teve o atestado de transferência negado por parte da CBF. Segundo a advogada do jogador, o longo tempo para se resolver o impasse só não se tornou mais angustiante porque era do desejo de Juninho uma transferência para a Europa. ''Ele estava ansioso mas ao mesmo tempo um pouco tranqüilo porque esperava a abertura das inscrições dos campeonatos europeus'', disse Gislaine.
O meia estava em Pernambuco e chegou ontem à noite ao Rio de Janeiro. Juninho vinha mantendo a forma física com treinamentos diários supervisionado por um preparador-físico. ''Estou ansioso para voltar a jogar, a treinar, ou seja, aquele dia-a-dia de todo jogador'', declarou Juninho, de Recife, aliviado.
Ironia - O vice-presidente jurídico do Vasco, Paulo Reis, disse que o clube não vai tentar qualquer medida judicial para impedir a transferência de Juninho para o Lyon. E ainda reagiu com ironia quando soube do despacho proferido pelo juiz. ''Eu apenas quero saber o dia em que o Juninho vai viajar para a França. Vou ao aeroporto para lhe desejar boa viagem e que vá com Deus'', declarou.
A advogada Gislaine Nunes, no entanto, faz um alerta aos dirigentes cruzmaltinos. ''Quando o Juninho tiver sua transferência concretizada, muitos jogadores do Vasco vão sair do clube pelo mesmo motivo. Posso dizer que há diversas ações prontas, esperando apenas uma solução do caso do Juninho, que devo dar entrada na justiça trabalhista já na segunda-feira''.