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Os outros mensalões


O inesgotável apetite de trambiqueiros espalha-se democraticamente pelo território nacional e em todos os níveis de governo, informa com especial clareza a reportagem de Israel Tabak publicada na edição de hoje. A análise evidenciada pelo repórter mostra que os vícios e desvios revelados nos últimos meses pelas investigações das CPIs no Congresso proliferam em municípios e estados. Com profundas deficiências nos mecanismos de controle e fiscalização, mensalões e mensalinhos, por exemplo, dominam o cenário político nacional.

No repertório dos ladrões federais, ''caixa dois'' costuma movimentar fortunas capazes de espantar xeques árabes. Verificam-se contratos hiperfaturados, porcentagens desviadas de bilionárias verbas de publicidade, lavanderias de dinheiro sujo com sucursais no exterior, negociatas envolvendo bancos privados, estatais e empresas privadas pilantras. O desfile de abjeções, constata-se, prossegue nos andores seguintes, repetindo em outro plano certas patifarias. Nas esferas municipais de poder, observam-se com freqüência indesejável a emissão de notas fiscais ''frias'', a adoção de privilégios a amigos, os desvios de recursos públicos para benefícios privados, a realização de licitações fraudadas.

Trata-se, portanto, de um vasto arsenal de esperteza que arruina os serviços públicos prestados nos estados e municípios, compromete gerações atuais e futuras e provoca rombos fundamentais no caixa das administrações - subtraindo recursos que deveriam ser destinados ao atendimento das crescentes e complexas demandas da sociedade brasileira. Somados, tais vícios ainda atraem a formação de quadrilhas que podem evoluir para o crime organizado e o tráfico de drogas e armas.

Ademais, investidores sérios afastam-se de cidades e regiões onde vigoram práticas de corrupção e controle administrativo, conforme aponta relatório da organização não-governamental Transparência Brasil sobre práticas odiosas repetidas nas prefeituras do país. Não é toa que representantes de todas as esferas do poder têm emplacado a maior e mais inquietante das derrotas eleitorais possíveis: a perda da credibilidade perante seus representados.

Pesquisas de opinião revelam, afinal, que avança a musculatura das desilusões. Há cerca de dois meses, o Ibope revelou que 90% dos brasileiros vêem os políticos com desconfiança, a maior marca desde o início da série de pesquisas do instituto, em 1989 - quando a desconfiança atingia 81% dos entrevistados. Generaliza-se, pois, o sentimento de derrota e choque moral de gerações de eleitores, frustrados com a ineficiência, a paralisia, o descaso e a incapacidade de oferecer respostas adequadas aos anseios da sociedade.

Diante dos trambiques que adornam os gabinetes, não deve haver tolerância. Eliminar - ou, pelo menos, reduzir - as práticas das quais a sociedade quer distância exige avanços monumentais nas ferramentas de fiscalização e controle dos atos políticos. Prestação de contas mais transparente, reforço aos órgãos fiscalizadores (como os tribunais de contas), julgamento mais célere e punição severa para bandidos instalados no poder estão entre as evidências óbvias para salvar o país das fraturas expostas da corrupção.

Eis o passo necessário para o refinamento da democracia brasileira e para a modernização de nossas instituições. Barrar a ação de corruptos ajudará na assepsia e na reorganização da vida política do país, tarefa essencial para abreviar a amarga excursão que a alma brasileira percorre no inferno.


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[20/NOV/2005]


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