Perfil Imutável

CONGRESSO

Com a ênfase predominante na sucessão presidencial, a eleição parlamentar fica em último lugar nas considerações do cidadão. O eleitor deixa para os últimos dias a opção dentre os nomes ao seu dispor. Deputados ficam para o fim porque a eleição proporcional e a eleição majoritária não fazem boa liga.

Pesquisa do Instituto de EstudosSocioeconômicos (Inesc) avaliou que a taxa de renovação parlamentar ficará abaixo de 40%, ao contrário da tendência a substituir metade da representação nacional, desde a eleição da Constituinte em 1986 e repetida em 1990, 94 e 98. Pode ser que a sociedade tenha perdido a ilusão de que poderia melhorar o padrão legislativo pela demonstração de desagrado maciço.

O levantamento do Inesc teve o objetivo de verificar as dificuldades de organização da base parlamentar do futuro presidente da República. As maiores dificuldades, na hipótese de Luiz Inácio se eleger, são óbvias, atenuadas, porém, pelo poder de sedução do Executivo e pela atração sobre os pequenos partidos. O estudo mostra ainda que a atual maioria se recomporá automaticamente na hipótese de vitória Ciro Gomes ou José Serra. São os dois herdeiros naturais da maioria que se organizou nos dois mandatos de Fernando Henrique.

Ao traçar o perfil parlamentar do próximo mandato, o Inesc projetou uma representação feminina entre 30 e 35 mulheres, com a manutenção da chamada bancada evangélica no mesmo tamanho e uma espécie de bancada de políticos aposentados por tempo de serviço, que já deram contribuição e são testemunhas históricas.

Os 4.833 candidatos tregistrados para o preenchimento de 513 cadeiras na Câmara dos Deputados espanta menos do que a quantidade dos pretendentes. Na verdade, a questão é que a representação política, com tal proporção, está sempre à beira do que se chama de estouro da boiada. Ou seja: o controle, diante do número de partidos, numa realidade que não comporta mais de meia dúzia de tendências políticas, tende a favorecer um tipo de negociação que foge aos princípios e se impregna de fisiologismo político. O governo Fernando Henrique não se livrou de penosas negociações de favores por votos num espetáculo que mais parecia escambo parlamentar do que entendimento por interesse público. A oportunidade serve para os próprios dirigentes políticos avaliarem não mais a necessidade mas a urgência da reforma política, tantas vezes adiada.

O Congresso está longe de transmitir a visão de trabalho organizado, com rendimento que dispense complicadas explicações difíceis de serem aceitas. A melhor oportunidade está aí. É aproveitá-la ou desistir.

[24/AGO/2002]

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