O caso que envolveu o PT do Rio Grande do Sul pode servir de lição dupla ao petismo. Primeiro: quem vai para o governo tem que honrar a retórica, principalmente em assunto de moralidade pública. Segundo: em política, todos têm telhado de vidro e devem observar o máximo cuidado ao jogar pedra no vizinho. Os petistas se apresentam como donos da moralidade. O escândalo começou com a revelação de que figura da constelação gaúcha do PT intermediou, com pleno conhecimento do governador, alívio do jogo do bicho por parte da polícia.
Não resta dúvida de que o caso foi verídico e a CPI que dele resultou terá conseqüências política. Tanto o PT sentiu o golpe que não deixou a semana se encerrar sem fazer ato público de reparação ao governador Olívio Dutra, com a presença dos maiores dirigentes nacionais. Escândalos que envolvem o submundo do crime - e o jogo do bicho opera nesse nível - têm começo mas o fim sempre demora. Os adversários tiram o máximo rendimento possível do seu prolongamento.
Era previsível o potencial desde o aparecimento do nome do engenheiro Espártaco, filho do governador Olívio Dutra, na lista dos contribuintes para a compra do edifício onde funciona a sede estadual do PT. A existência de um Clube de Seguros da Cidadania veio a calhar. O próprio nome é portador de suspeita. Cidadania não faz clube de seguro. O dirigente desse CSC foi a ponta do iceberg, que emergiu com o negociador do alívio da polícia na ação repressiva do jogo do bicho dizendo-se autorizado pelo governador Olívio Dutra.
Depoimento de ex-empregado do clube de seguros piorou a situação: Sílvio Gonçalves Dubal, sobrinho de Daniel Gonçalves, diretor da entidade. declarou à CPI da Segurança Pública que seu nome consta da lista porque foi ameaçado se se recusasse assinar o documento. O engenheiro Espártaco Dutra confirmou sua assinatura, mas o documento é datado de julho último e se refere a contribuições feitas em 1988. Como se vê, a suspeita é inevitável e pede completa apuração.
A CPI quer chegar ao jogo do bicho, que é a parte mais podre da história. Diógenes de Oliveira já recuou da primeira versão, quando se defendeu com a alegação de que o governador teve conhecimento da iniciativa de procurar a polícia. Retratou-se mas não deu as razões. Oficial de justiça apreendeu na residência do presidente do CSC a lista que não explica a diferença de três anos entre a data da doação e o recibo.
Sabido que o PT procede como se tivesse o monopólio do espírito público, tropeço como esse dá a oportunidade que seus adversários esperavam. Vida pública é assim mesmo. O PT terá de ser o maior interessado em esclarecer, e não em conter a repercussão do fato. Quanto mais depressa chegar aos culpados, melhor para o partido e para a democracia. Não é sem razão que o prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro, se preocupa com o perigo do episódio para a imagem do PT, depois de três administrações municipais seguidas e de eleger o governador do estado, sob a qual veio a público a suspeita de envolvimento do governo com o jogo do bicho: ''Gravação desse tipo fornece arma poderosa aos nossos adversários.'' Quanto menos sombra, mais transparência. Se não tem o que esconder, o PT deve ser o primeiro a ajudar o completo esclarecimento, a que preço for.