Mais que provinciana, a reação negativa da oposição ao sucesso do presidente Fernando Henrique na viagem à Europa não se sustenta na realidade. Os críticos agridem os fatos quando afirmam que o presidente da República faz discursos diferentes para o público interno e para o público externo. Não se dão ao trabalho sequer de acompanhar o noticiário. Poucas vezes a agenda do Itamarati foi tão sólida e coerente. Com coragem e ousadia, o Brasil tem defendido o fim das barreiras protecionistas do mundo desenvolvido. Nos fóruns internacionais, tornou-se mais agressivo e acaba de obter vitória histórica sobre o Canadá no âmbito da Organização Mundial do Comércio.
A diplomacia brasileira alinhou-se à pressão dos países em desenvolvimento para que a questão agrícola conste da pauta da próxima reunião da OMC em Doha, no Catar. E já deixou claro aos Estados Unidos, em várias ocasiões, que o Brasil aceita participar da Aliança de Livre Comércio das Américas (Alca), desde que haja equilíbrio de forças e não se transforme em feudo americano. Todas essas posições receberam o endosso de Fernando Henrique, que sempre as expõe aos líderes mundiais em reforço ao trabalho do Itamarati.
Contraditória é a atitude da oposição que, em lugar de apoiar a política externa do país, prefere depreciar os esforços do governo brasileiro por maior simetria nas relações internacionais, seja os do presidente, seja os Itamarati. Como se a única questão que interessasse ao país fossem as eleições de 2002. Não vê outra coisa, senão a postura demagógica capaz de gerar votos. Daí a diatribe juvenil em relação ao prestígio internacional de Fernando Henrique.
Mas ainda há tempo para corrigir o ressentimento. Na quinta-feira, 8 de novembro, o presidente da República se encontrará em Washington com o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e no sábado 10, fará a abertura solene da 56ª Assembléia Geral das Nações Unidas. Usará as duas oportunidades para reafirmar a posição do Brasil sobre o comércio mundial. A oposição poderia ganhar tempo e a anunciar, desde já, que se coloca ao lado do presidente na defesa dos interesses nacionais. O Brasil está ou não unido contra o protecionismo?
É fundamental que George W.Bush saiba que existe consenso entre os brasileiros quanto à necessidade de uma nova ordem mundial. Mais fortes ficarão os argumentos de Fernando Henrique em defesa de uma globalização mais humana e solidária. Como antecipou o Jornal de Brasil, durante a audiência na Casa Branca, o presidente vai destacar que o Brasil reagiu de pronto contra os ataques terroristas e espera que os EUA sejam sensíveis à necessidade de derrubar as barreiras alfandegárias e a legislação antidumping que pesam sobre às economias em desenvolvimento.
O Brasil defende a integração da economia mundial, mas em bases justas. Como disse Fernando Henrique na Assembléia Nacional francesa, ''lutemos por uma nova ordem mundial que reflita um contrato entre nações realmente livres, e não apenas o predomínio de uns Estados sobre os outros, de uns mercados sobre outros''. O presidente pode reafirmar em Washington e na ONU a crítica que fez à política externa dos EUA e que tantos aplausos lhe valeu em Paris: ''A barbárie não é somente a covardia do terrorismo, mas também a intolerância ou a imposição de políticas unilaterais em escala planetária''.
A pauta do encontro com Bush não se resumirá ao protecionismo. Incluirá certamente os fundamentos sobre os quais será construída a Alca e também a oportunidade de reformar organismo multilaterais como o Banco Mundial e o FMI, com o objetivo de torná-los mais flexíveis na solução dos problemas financeiros dos países emergentes. Haverá espaço também para defender a ampliação do Conselho de Segurança da ONU, com a inclusão do Brasil e da Índia. Vivendo um momento crítico em que é imprescindível o apoio às ações dos EUA no Afeganistão, o presidente americano mostra-se menos intransigente diante dos pleitos internacionais. Voltou atrás, por exemplo, em relação à Convenção sobre Armas Tóxicas e Biológicas, ao concordar com leis mais severas e supervisão internacional. Tudo indica que está também disposto a reduzir a resistência ao Protocolo de Kioto. Portanto, é hora de negociar.
No Brasil, a oposição só tem uma postura a adotar: dar respaldo à agenda do Itamarati. O argumento de que fazê-lo significa reconhecer méritos na ação diplomática do presidente Fernando Henrique é obtuso e canhestro. Trata-se de visão oportunista, à medida que pretende tirar proveito de insatisfações domésticas de curto prazo. Na prática, confunde a opinião pública e presta um desserviço ao país. E só.