O strip-tease que o ambiente político e as ameaças de apagão proporcionaram ao Brasil ao longo das últimas semanas terá um efeito benéfico se for além do que pessoas e fatos significam. Não há, como nas boas histórias de suspense, um ''nome da rosa'' a descobrir.
Sabemos que houve um esgotamento da aliança partidária que permitiu ao presidente Fernando Henrique governar, e sabemos também que o potencial de crescimento da economia foi ignorado, lá atrás, por gente que não confiou na capacidade do país para se reciclar e voltar a crescer.
O que vale uma reflexão é algo mais profundo: por que derrapamos na economia e na vida política? Por que as dissonâncias? Talvez porque ainda não refinamos os conceitos de Estado e Nação, o que tanto revela fraquezas políticas quanto econômicas.
Segundo Bobbio, na Idade Média uma pessoa deveria se sentir antes de tudo um cristão, depois um borgonhês, e, somente em terceiro lugar, um francês. O que se aplicava aos franceses da Idade Média com certeza não se aplica aos brasileiros do início do século 21. Os tempos são definitivamente outros, mas a pergunta continua valendo: como deve sentir-se um brasileiro exposto à globalização ou a uma guerra fiscal entre governadores por causa de um imposto criado durante os tempos da ditadura militar?
Estado e Nação passam por transformações profundas no mundo contemporâneo e o Brasil, com suas crises de todos os tipos, não fica ao largo. O que as crises revelam é que a falta de uma consciência nacional anda lado a lado com a falta de definição do papel do Estado e dos mercados.
A Nação falhou, até agora, em criar uma consciência de como cada cidadão deve sentir-se na vertigem da globalização. E falhou, também, em traçar os limites do Estado e dos mercados. Vive-se não apenas um problema material. Vive-se um problema de cultura. E os dois andam de braços dados.
A crise de energia deixou evidente no Brasil algo diferente das fraturas que expôs na Califórnia. O Estado mais rico dos Estados Unidos foi excessivamente auto-confiante quanto à sua expansão e liderança tecnológica. Entrou em descompasso porque enquanto entronizava a ''nova economia'' esqueceu a ''velha'' e não acertou as contas entre distribuidoras de energia, produtoras e mercado. O Estado brasileiro falhou porque foi menos confiante do que devia em sua capacidade de reciclagem e crescimento e, ainda hoje, é indefinido sobre que modelo devemos seguir numa área tão crucial quanto a energia. Entramos no ''novo'' através das importações e não investimos no ''velho'' porque faltou autoconfiança.
Nação é um termo que degenera em nacionalismo. Estado é um termo que degenera em estatismo. Os dois são parecidos, mas não são iguais. O Brasil não encontrará o caminho de volta ao crescimento através dos ''ismos''.
O Brasil falhou por muitos motivos, mas um deles salta aos olhos: o sistema político que tantos méritos conseguiu por ter devolvido a democracia ao povo brasileiro, parece que se embebedou com essa virtude. Até hoje batemos palmas pelo fato de que somos uma democracia, como se isso não fosse parte da normalidade. Enquanto cultivávamos conquistas do passado, talvez por insegurança quanto ao presente, não fomos capazes de completar o ciclo de reformas básicas que catapultariam a economia do século 20 para o século 21.
O mini-tumulto criado em torno da Federação entre 1998 e 1999, quando os Estados brasileiros declararam guerra fiscal tendo a CPMF como gatilho, foi um precursor do esgarçamento político que se assiste hoje.
A postergação da reforma tributária tem como contraponto a trava na discussão do voto distrital. O que vem na frente? A Nação falhou em gerar um sistema político consistente, enquanto o Estado falhava em gerar um modelo econômico no qual mercado é mercado e governo é governo.
Ambos são um problema de cultura, pois só o amadurecimento cultural permitirá responder com tranqüilidade como cada um deve sentir-se no mundo contemporâneo, além de sentir-se brasileiro. Está na hora de recuperar uma agenda positiva, em lugar da agenda negativa em que todos mergulhamos. Essa ponte permitirá atravessarmos o purgatório inevitável das eleições que permitirão reconstruir, em bases mais sólidas, Estado e a Nação.