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Meirelles terá sigilo quebrado

Supremo Tribunal Federal dá sinal verde para investigação do presidente do BC. Polícia Federal não será acionada

Luiz Orlando Carneiro

Alexandre Torreão
Meirelles se diz “absolutamente confortável” para continuar no comando do BC durante a investigação

Meirelles se diz “absolutamente confortável” para continuar no comando do BC durante a investigação

BRASÍLIA - O Supremo Tribunal Federal autorizou o Ministério Público Federal a quebrar o sigilo fiscal do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e outras seis diligências requeridas pelo procurador-geral da República, Claudio Fonteles, para apurar supostos crimes de sonegação fiscal, evasão de divisas e lavagem de dinheiro que teriam sido praticados por Meirelles entre 1996 e 2002, quando morou nos Estados Unidos e foi presidente do BankBoston. O inquérito já está em curso no STF - foro privilegiado para processar e julgar o presidente do BC, de acordo com a Lei 11.036/04, considerada constitucional pelo tribunal, na semana passada.

Além da requisição dos ''dossiês integrados (pesquisa completa) e cópia de todas as declarações de impostos de renda desde o ano-exercício de 1996'' de Meirelles, como pessoa física e jurídica, o ministro-relator do inquérito, Marco Aurélio de Mello, determinou também à Receita Federal o ''relatório circunstanciado da auditoria fiscal promovida contra o representado e empresas por ele controladas, e cópia de todos os documentos solicitados pelos auditores fiscais ou apresentados por Meirelles''.

As requisições dirigidas ao Banco Central (três) referem-se a processos e informações sobre a Boston Comercial Participações, Silvânia One, Silvânia Two e outras sete empresas que teriam sido controladas pelo atual presidente do BC. A única das diligências negada pelo ministro-relator do inquérito foi a requisição à Ordem dos Advogados do Brasil da relação dos advogados do escritório Demarest e Almeida, de São Paulo.

O ministro Marco Aurélio de Mello explicou que não houve necessidade de acionar a Polícia Federal, já que as diligências solicitadas restringem-se à requisição de documentos existentes na Receita, no BC e no Conselho de Contribuintes.

Num despacho de pouco mais de três páginas, o ministro solicita que, ao fim das apurações junto à Receita e ao BC, ''atente-se para o acesso reservado do Ministério Público e do interessado Henrique Meirelles, devendo os documentos permanecerem, por isso, envelopados, com a tarja relativa à preservação do sigilo, de acordo com o artigo 3º da Lei Complementar 105/2001''. Essa lei dispõe sobre o sigilo de operações das instituições financeiras.

Marco Aurélio ressalta ainda no despacho que as diligências autorizadas são relativas a ''simples inquérito'', não cabendo ainda definir a ''identidade'' dos crimes pelos quais Meirelles foi indiciado pelo MPF, mas considera ''razoável'' a solicitação do procurador-geral da República. E acrescenta: ''Descabe, nesta fase, avaliar o envolvimento ou não do indiciado. De início, há de se viabilizar a atuação do Ministério Público, até mesmo para que não pairem dúvidas sobre o perfil de quem dirige autarquia da envergadura do BC''.

O ministro também comentou que o indiciado disse estar ''absolutamente empenhado em esclarecer inteiramente as questões colocadas contra si'', e que ''tratando-se de homem público, detentor de cargo da maior importância no cenário nacional, outra postura não seria de se aguardar''.

Tradicionalmente, o STF acolhe os pedidos de investigação feitos pela Procuradoria-Geral da República, mesmo quando os indícios não são consistentes, avaliam analistas. Perguntado sobre a repercussão desta decisão no mercado financeiro, Marco Aurélio de Mello disse que ''em Direito, os meios justificam os fins''.

- Não podemos privilegiar a estabilidade do mercado a ponto de prejudicar um bem maior que é a elucidação dos fatos - disse o ministro. - Para chegar ao trancamento de um inquérito, teríamos que perceber uma inocência escancarada.

O governo prepara estratégia de defesa política de Meirelles. Avalia, por exemplo, que a oposição vai convocá-lo ou convidá-lo a dar explicações no Congresso. O Planalto já teria orientado Meirelles a não reagir emocionalmente, evitando, por exemplo, pedir demissão.

Os advogados de Meirelles disseram que o despacho do ministro do STF é ''correto e equilibrado''. Segundo eles, as investigações permitirão dar esclarecimentos suficientes da inocência do presidente do BC. Eles anunciaram que vão entrar, na próxima semana, na Corregedoria do Ministério Público, para apurar a responsabilidade pelo vazamento de informações pessoais de Meirelles.


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[13/MAI/2005]


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