Grupos nacionais descobrem o mercado de língua espanhola e fecham acordos comerciais com parceiros na América Latina
Nada de carnaval, samba e futebol. Na última semana, investidores de diversos países da América Latina e da Europa, além dos Estados Unidos, estiveram de olho em outro produto de exportação brasileira: os livros. Durante a 18ª Feira Internacional do Livro de Guadalajara, no México, realizada neste fim de semana, estiveram presentes cerca de 1.500 editoras. Entre uma e outra atração literária, com direito à presença de escritores consagrados como o colombiano Gabriel Garcia-Marquez e o mexicano Carlos Fuentes, o que roubou a cena foi a movimentação do mercado.
O maior evento editorial de língua espanhola no mundo contou, este ano, com horários exclusivos para acordos de publicações, em um salão de negociações do quilate de um hotel cinco estrelas. E quem se deu bem desta vez foram as editoras brasileiras. Antes mesmo do início da feira, as estatísticas já indicavam a representatividade dos editores nacionais. Em relação à última edição, houve um aumento de 30% dos expositores brasileiros, o que confirma a tendência da exportação, especialmente, de títulos em espanhol.
Breno Lerner, diretor geral da Editora Melhoramentos, que ano passado teve 2% de seu faturamento, o equivalente a R$ 500 mil, originados de exportações, volta para o Brasil bastante otimista com as negociações.
- Fechamos convênios com editoras do Equador, do Chile e da Argentina, além de um contrato de vendas para bibliotecas norte-americanas - conta Lerner, que aposta num crescimento de 3% nas exportações este ano.
A produção de livros nacionais em outras línguas tem se tornado, segundo o vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Bernardo Gurbanov, uma tendência cada vez mais evidente.
- Além de as cotações do euro e do dólar estarem favoráveis às exportações, com esse tipo de negociação as editoras passam a ter um controle total da edição - explica.
Para Lerner, a exportação de livros, principalmente via projetos governamentais de outros países, como no caso do México e da Argentina, aumenta o valor agregado do produto, o que é um grande ganho para a editora.
- Uma editora argentina, por exemplo, fechou um grande acordo, que visa a publicação de autores amazonenses, com a Secretaria de Cultura do Amazonas - acentua Gurbanov, alertando para o fato de instituições governamentais brasileiras também estarem atentas à tendência do mercado.
Um dos grandes problemas da venda de direitos autorais, em vez da exportação do título, seria a incerteza do recebimento integral dos royalties. Mas a exportação do livro, como produto final, não é a única novidade no mercado editorial brasileiro. Uma editora argentina negociou com uma gráfica brasileira a produção de mais de 120 mil livros. Uma ironia, considerando que, historicamente, a Argentina era mais competitiva na indústria gráfica. Há ainda editoras brasileiras, especialmente as que publicam literatura infantil e juvenil, que exportam os livros com as ilustrações e sem os textos. Os países que importam esse material finalizam os livros com suas línguas de origem. É a economia de escala se alastrando também no mercado editorial.