A professora Lena Lavinas alerta que, hoje, o eixo dos programas federais, agrupados agora no Bolsa-Família, passa pelo combate à fome por meio de contrapartidas sociais. Esse modelo, vigente ao longo da era Fernando Henrique Cardoso e mantido na gestão Lula, provoca distorções, segundo Lena.
Exemplo: o teto de renda per capita para se ter direito à ajuda do governo é de R$ 90; um pequeno aumento salarial do chefe da família pode causar sua exclusão.
Ao longo dos anos 90, segundo dados do livro da pesquisadora, apesar da estabilização econômica, houve pouca oscilação na capacidade da população mais pobre de aspirar a uma dieta mínima aceitável conforme os padrões internacionais (2.266 quilo-calorias por dia). Na faixa dos 10% mais pobres, em todas as regiões metropolitanas, todos estão abaixo do nível ideal de consumo. Na Grande Recife, onde o quadro é mais dramático, a dieta média reúne menos de um sexto das calorias necessárias.
Lena acrescenta que mesmo as camadas mais pobres da população que conseguem consumir o mínimo de calorias diárias geralmente se alimentam mal, ou seja, comem carboidratos (massas, arroz, batatas) demais, e proteínas (carnes), vitaminas e sais minerais de menos.
- Por isso, a obesidade é cada vez maior entre os mais pobres - aponta a economista, que vê na desoneração dos alimentos básicos um avanço. - O impacto relativo dos impostos cresce à medida que a renda diminui. Mas a questão é: que produtos devem ser desonerados? Só arroz e feijão? Por que não carne e laticínios? - questiona.
Uma estimativa: garantir três refeições decentes por dia para todos os brasileiros que passam fome, como sonha o presidente Lula, custaria R$ 8,5 bilhões por ano. Pouco mais do que o país paga em juros da dívida pública a cada mês.