As safras recordes de alimentos não tiveram qualquer impacto na redução da fome no país, mostra estudo da FGV
Os sucessivos recordes nas safras agrícolas têm turbinado o saldo da balança comercial, mas vêm apresentando impacto nulo no combate à fome no Brasil. Pior: após cinco anos de queda na renda, aumentou a chamada insegurança alimentar. Ou seja, as refeições dos brasileiros pobres são cada vez mais minguadas e de pior qualidade. Hoje, 21% da população nacional, ou 32 milhões de pessoas, se alimentam de forma insuficiente. O alerta é da professora Lena Lavinas, do Instituto de Economia da UFRJ.
- O Brasil se tornou nos últimos anos o maior exportador de carne bovina e está entre os principais produtores de frango, sucos, soja e outros grãos. O problema é que uma grande parcela dos brasileiros não tem como comprar os alimentos que estão nas gôndolas dos supermercados.
Ao lado do economista Eduardo Henrique Garcia, a pesquisadora acaba de lançar, pela Editora UFRJ, o livro Programas sociais de combate à fome - O legado dos anos de estabilização econômica, trabalho em que disseca projetos das esferas federal, estadual e municipal de dicados ao drama nacional. Nenhum deles fica bem na fotografia. Para Lena, que já trabalhou no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e ma Organização Internacional do Trabalho (OIT), todos os programas erram o alvo.
De acordo com a economista, o próprio conceito de fome no país está equivocado. Em sua esmagadora maioria, os projetos que tratam da questão se limitam à venda subsidiada ou à distribuição gratuita de alimentos, em troca de contrapartidas sociais, como matrícula de crianças na escola ou participação em programas de inclusão. Lena adverte que estas condições acabam levando à evasão da população mais carente, que muitas vezes, por absoluta falta de dinheiro, é incapaz de cumprir exigências simples.
- Se o acesso aos alimentos é um direito básico, então é preciso garantir este acesso. Muitos não preenchem as condições impostas e acabam se afastando. Os programas deveriam ser permanentes, e não reiterar a instabilidade do próprio mercado de trabalho - diagnostica a pesquisadora, que defende a universalização da ajuda por meio de programas de renda mínima incondicionais.