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''A economia está se reindexando. Isso é grave''

André de melo mondenesi

André de Melo Mondenesi / Foto de André Lobo

Na avaliação do professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro André de Melo Mondenesi, existem duas razões para explicar o fato de o Brasil praticar as taxas de juros mais altas do mundo: o elevado nível da taxa básica (Selic); e o spread bancário. Para reverter esta situação, ele sugere três medidas fundamentais:

- A desindexação da economia; um maior nível de concorrência entre os bancos; e uma redução da cunha fiscal.

Mondenesi frisou, porém, que mesmo que avanços isolados nesses áreas determinem uma redução das taxas juros no Brasil, a queda só ocorrerá de forma significativa se quando todas essas medidas forem adotadas. Como resultado das taxas de juros recorde, ele cita o desempenho econômico medíocre e os altos níveis de desemprego.

- A redução das taxas de juros, ainda que não seja condição suficiente, é absolutamente necessária para reverter o quadro de quase estagnação econômica das duas últimas décadas - diz o pesquisador, que lança este ano um livro sobre regimes monetários e metas cambiais, para mostrar como a teoria macroeconômica é aplicada na condução da política monetária.

Essa política, por sinal, é principal foco de atenção de Mondenesi, crítico da condução monetária adotada pelo atual governo.

- O regime de metas de inflação limita as alternativas de política econômica no controle inflacionário exclusivamente à utilização da política monetária e deixa de lado outros instrumentos, como as políticas tributária, comercial e tarifária.

Mondenesi acredita que essa limitação acaba por exigir que a Selic seja mantida em patamares muito elevados, até porque, observa, a inflação não é um fenômeno exclusivamente monetário.

- Uma coisa é certa: inflações com causas diferenciadas devem ser combatidas com instrumentos diferentes. Dependendo da natureza do impulso inflacionário, a estabilidade de preços não deve ser obtida apenas por meio da política monetária, mas sim por uma combinação dos diferentes instrumentos de política econômica.

O argumento do economista é que o controle da inflação não cabe exclusivamente ao Banco Central. Até porque, se há uma quebra na produção de trigo e os preços sobrem, o remédio indicado não é aumentar juros para reduzir o consumo.

- O que é preciso nesse caso é incentivar a importação desse bem por meio de uma redução de sua tarifa de importação. Neste caso, a terapêutica mais indicada não é uma contração monetária que provoque desaquecimento da economia e aumento do desemprego - diz.

Mas sua maior preocupação é com o que define como reindexação das economia. Resultado principalmente dois serviços públicos de ''vital importância'', energia e telefonia, terem seus preços indexados aos ao Índice Geral de Preços (IGP), da FGV.

- Os preços de dois dos principais serviços públicos são indexados a índices gerais de preço (IGP-M e IGP-DI), fazendo com que a inflação passada tenda a se perpetuar no futuro, ou seja, que o processo inflacionário brasileiro reassuma um caráter altamente inercial. A economia está se reindexando e isso é grave. Representa o maior retrocesso da historia econômica brasileira recente - diz ele, defensor de uma renegociação dos contratos desses setores.

Outro destaque feito por Mondenesi é o peso que os preços administrados têm no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do IBGE, indexador que baliza as metas de inflação do governo. Esses preços, controlados ou influenciados por órgãos públicos, segundo ele, ''remontam a cerca de 30% do índice''.

- Parcela significativa do IPCA não é afetada pela taxa de juros, o que reduz a eficácia da política monetária no combate inflacionário.


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[30/MAI/2004]


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