Enquanto o governo reduziu a Selic 7% até julho, taxa média cobrada por bancos e financeiras baixou apenas 0,71%
Os bancos e financeiras não estão repassando integralmente ao consumidor a queda de juros decidida pelo Banco Central. Nas duas primeiras reduções feitas pelo governo a taxa básica, a Selic, passou de 26,5% para 24,5%, o que corresponde a uma queda de 7% no tamanho da taxa mensal correspondente. Já os juros médios cobrados nos crediários do país passaram de 8,38% para 8,32%, uma redução de apenas 0,71%.
Os cálculos foram feitos com base na pesquisa mensal da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac) de março, segundo mês de vigor da Selic de 26,5%, e julho, quando a taxa baixou para 24,5%. A última mudança da taxa básica, para 22% ao ano, não entrou na comparação porque ocorreu este mês, ou seja, ainda não houve tempo hábil para que todos os bancos mudassem os valores.
O economista Miguel Ribeiro de Oliveira, presidente da Anefac, não tem dúvidas que as duas primeiras reduções dos juros básicos não foram repassadas integralmente ao consumidor. Toda vez que a Selic (base do custo de captação dos bancos) muda, Oliveira calcula qual deveria ser a alteração para o consumidor. Os números, entretanto, acabam não sendo confirmados no mês seguinte pela pesquisa sobre taxas cobradas.
- Nem sempre que a Selic cai as taxas para o consumidor acompanham. Muitas vezes o banco anuncia corte em uma ou outra linha, mas como tem mais de 20 tipos de financiamentos, acaba fazendo mais marketing do que redução efetiva - diz.
O pior, ressalta, é que a redução feita pelos bancos deveria ser maior do que a dos juros básicos, uma vez que as taxas praticadas pelas instituições têm muita ''gordura''. Mas como ocorre o contrário, o ganho dos bancos tende a crescer.
- Com a Selic em 26,5% o sistema financeiro estava cobrando do consumidor cerca de 521% mais do que o custo médio de captação. Com a Selic de 24,5% esse spread (diferença entre o que o banco paga pelo dinheiro e o que cobra dos clientes) aumentou para 556% - explica Oliveira.
O professor de matemática financeira José Dutra Vieira Sobrinho também segue de perto o movimento dos juros e se aborrece com o que vê.
-Na ponta do lápis, a redução feita agora em agosto deveria provocar uma queda de 0,17 ponto percentual em todas as taxas de juros mensais, mas ninguém faz. E isso seria nada diante de juros tão estupidamente elevados.
Para comprovar como a operação aumenta o ganho dos bancos, Dutra faz uma simulação simples. Quando a Selic estava em 26,5% ao ano (1,98% ao mês) de cada R$ 1 mil emprestados, o banco pagava cerca R$ 19,80 de custo de captação e cobrava R$ 83,80 do cliente, ou seja, ganhava R$ 64 por mês.
Quando a taxa baixou para 24,5% ao ano (1,84% ao mês) para cada R$ 1 mil emprestados, o banco passou a pagar R$ 18,40 de captação e cobrar R$ 83,20 do cliente. Passou a ganhar R$ 64,80 ao mês.
Dentre as taxas acompanhadas pela Anefac a única que caiu mais do que a Selic foi o CDC dos bancos, financiamento vinculado a compra de bens que estão com queda recorde de vendas, como automóveis e eletroeletrônicos. Já no cartão de crédito a taxa até subiu.
- Não há explicação para esse aumento. Há variáveis como a inadimplência. Pode ser também as administradoras entendendo que o consumidor está dependendo muito do cartão e, por isso, é possível aumentar a margem - diz Oliveira.
Ele acredita, porém, que a partir deste mês os juros para o consumidor vão ter queda mais acentuada por causa da pressão do Banco Central e das críticas fortes ao sistema financeiro.
O economista-chefe da Federação Brasileira dos Bancos, Roberto Luis Troster, não quis comentar os números por discordar da metodologia de pesquisa usada pela Anefac. Segundo Troster, os bancos estão repassando ao consumidor toda a queda da Selic e até mais.
- Quando a Selic sobe, o aumento aplicado é maior. Quando cai, a redução repassada ao consumidor também vai além dos juros básicos.
O aposentado Severino do Espírito Santo, de 56 anos, não está nada satisfeito com as taxas em vigor no mercado.
- Se compararmos os juros praticados no Brasil com os dos países da Europa, é uma coisa absurda - reclama.
Fazendo contas para financiar uma TV em 20 prestações, ele percebe que à vista, o aparelho custa R$ 479, enquanto a prazo sobe para R$ 798.
Colaborou Bruno Rosa