Descoberta impulsiona refino

Tipo de petróleo achado abre novas perspectivas para as instalações da Petrobras no país

Repórter do JB

Uma descoberta da Petrobras poderá mudar o rumo da exploração petrolífera no país. Óleo levíssimo, raro em território brasileiro, foi encontrado nas águas ultraprofundas da Bacia de Santos. O potencial do novo reservatório está sendo avaliado.

Análise dos dados sísmicos disponíveis indica que a companhia pode estar prestes a anunciar novo campo gigante de petróleo. E do tipo leve, o mais valioso do mercado.

O petróleo leve foi encontrado a quase 6 mil metros de profundidade na Bacia de Santos. Sob 1.500 metros de lâmina d'água, a sonda da Petrobras percorreu mais de quatro quilômetros Terra adentro até alcançar o novo reservatório. Testes estão em andamento. Resultados definitivos são esperados em poucos dias.

Para que as novas reservas sejam declaradas um campo comercialmente aproveitável, a Petrobras terá de perfurar mais poços, e delimitar sua extensão. Segundo informações obtidas pelo Jornal do Brasil, o poço descobridor é o 1-RJS-582, no BS-500, que começou a ser perfurado em agosto do ano passado. Apesar de localizado na Bacia de Santos, o poço, um dos mais profundos já perfurados no mundo, está geograficamente na costa do município fluminense de Niterói.

Os testes já são considerados um sucesso pelos técnicos envolvidos. A rocha onde está o petróleo é de tão boa qualidade, tão porosa, que engoliu todo o fluido de perfuração - também chamado de lama - usado no processo. Perderam-se 12 mil barris de fluido. Rochas com depósito de petróleo são uma espécie de esponja. O óleo fica nos espaços. Por isso, quanto mais porosa a rocha, maior a quantidade de petróleo recuperável.

A informação sobre a nova descoberta ainda não é pública, tampouco é confirmada oficialmente pela companhia. Circula entre um restrito grupo de técnicos e engenheiros. Se confirmado, o campo de óleo leve em território nacional não só lançará nova luz sobre a exploração petrolífera na costa brasileira como marcará de forma inesperada as comemorações pelos 50 anos de fundação da maior empresa brasileira, completos este ano.

Uma descoberta como essa também abre novas perspectivas para o refino nacional. Isso porque, mesmo atingindo a auto-suficiência em produção de petróleo, a Petrobras tem que importar o tipo leve, produzido em larga escala pelos países árabes, porque as refinarias brasileiras não estão adaptadas para processar só o petróleo pesado encontrado no país.

As últimas descobertas anunciadas no Brasil vêm revelando óleo cada vez mais pesado em águas cada vez mais profundas, um perfil que atrai grupos muito específicos: gigantes mundiais com fôlego e tecnologia para tanto. O especialista Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Estudos de Infra-Estrutura e ex-assessor especial da Agência Nacional do Petróleo, lembra, no entanto, que essa característica não é exclusividade do Brasil.

- Isso vem acontecendo no mundo todo, porque a exploração se lançou logo onde havia indícios de óleo leve.

Em setembro do ano passado, o JB publicou uma entrevista com o então diretor de Exploração e Produção da Petrobras, José Coutinho Barbosa. O executivo era quase uma voz dissonante em meio a uma seqüência de anúncios de descobertas de petróleo pesado, o que inclui o campo de Jubarte, 600 milhões de barris na prolífica Bacia de Campos, em agosto último.

Coutinho afirmou então que o Brasil não estava condenado a ter apenas petróleo pesado, tipo que rende menos derivados nobres, como gasolina e diesel, e que ainda custa mais caro para extrair.

- Estamos desenvolvendo o modelo geológico que nos indicará as áreas mais prováveis de ocorrência do óleo leve - declarou Coutinho à época

O petróleo é classificado de acordo com a tabela do Instituto Americano de Petróleo (API, na sigla em inglês). Quanto mais alta a graduação, mais leve o produto. Para os padrões brasileiros, petróleo mais comum vai de 18º a 24º API. O encontrado pela Petrobras em Santos tem 42º, quase gasolina. O petróleo de melhor qualidade encontrado no Brasil é o do campo de Urucu, no Amazonas, com 44º API.

[07/FEV/2003]

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