Edwards : ''O Mercosul morreu''

Economista americano acredita que Brasil precisa avançar no comércio para driblar a crise

Editora de Economia

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Sebastian Edwards

“Acho importante que os candidatos à Presidência defendam a independência do Banco Central” Sebastian Edwards

Para quem ainda têm esperanças de que o Mercosul será a saída da crise para o Brasil e os países vizinhos, não é otimista o cenário traçado pelo economista americano Sebastian Edwards, professor da Universidade da Califórnia (Ucla), presidente da Associação Econômica Latino-Americana (Lacea) e ex-economista-chefe do Banco Mundial para a América Latina e Caribe.

- É importante que o Brasil abandone a fantasia de que o Mercosul tem futuro e se alie às forças que estão lutando por um verdadeiro comércio livre e igualitário.

Especialista em comércio internacional e desenvolvimento econômico, Edwards acredita que o Brasil precisa aumentar o comércio internacional. ''Essa é a única saída possível'', reforça. Em entrevista ao Jornal do Brasil, por e-mail, o professor da Universidade da Califórnia elogiou algumas conquistas recentes apresentadas pela economia brasileira, mas colocou o dedo na ferida de vulnerabilidades.

Como parte da comemoração dos 50 anos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Sebastian Edwards e uma dezena de outros conceituados economistas internacionais e brasileiros participam, hoje e amanhã, do seminário internacional Desenvolvimento em debate. A palestra da qual Edwards irá participar será a de encerramento, amanhã, com o tema Desafios do Crescimento e a participação do sociólogo espanhol Manuel Castells, do ex-presidente do BNDES Antônio Barros de Castro e do ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda Winston Fritsch. O encerramento será feito pelo presidente Fernando Henrique.

Outros papas do pensamento econômico e social participam do evento, como o Prêmio Nobel de Economia de 2001, Joseph Stiglitz; o professor da Universidade de Paris Ignacio Ramonet e o professor da Universidade de Oxford Sanjaya Lall (leia matéria abaixo).

Como conhece bem o quadro econômico e político brasileiro, Edwards avalia que os pontos positivos são a conquista da estabilidade econômica, domando a inflação. Mas adverte que a dívida pública recorde ''chegou ao teto'', aumentando demais a vulnerabilidade. Isso, adverte o ex-economista-chefe do Banco Mundial, criou um círculo vicioso. Quanto mais o mercado vê essa instabilidade, o nervosismo gera taxas de juros e de câmbio mais elevadas. Isso, em troca - como a dívida está atrelada aos juros e ao dólar - resulta em um débito maior, que se traduz em mais incerteza e pânico.

- O apoio do Fundo Monetário Internacional foi muito importante, assim como as declarações dos candidatos à Presidência. Estou esperançoso que a crise será evitada. De qualquer modo, é importante perceber que não será fácil e que muitas dificuldades ainda estão no caminho - advertiu o economista.

Uma das sugestões para reduzir a volatidade dos mercados, por exemplo, seria uma declaração dos presidenciáveis na defesa do Banco Central independente. ''O Arminio (Arminio Fraga, presidente do BC) está fazendo um ótimo trabalho e seria muito bom se ele continuasse'', avalia. Outro ponto importante é que o Brasil assuma seu papel de líder no continente. A crise enfrentada pela Argentina, observa Edwards, é resultado de erros cometidos naquele país.

- É fácil criticar o FMI em relação à Argentina. Mas, na verdade, a Argentina tem feito muito pouco para sair da crise.

O economista frisa que o Brasil é completamente diferente da Argentina. Sobre o Mercosul, o presidente da Lacea acredita que não há outra saída senão ''negociar uma boa entrada na Alca''.

- Nós ensinamos as crianças que qualquer número multiplicado por zero é igual a zero. Neste caso, o Brasil é um número muito grande, mas a Argentina é zero.

Como especialista na área internacional, Edwards avalia que o pior da crise nas grandes corporações americanas parece ter ficado para trás. Mas adverte que houve algumas ''destruições fraudulentas'', o que provoca redução do número de empregos e da confiança. ''Sem confiança e crédito, a economia de mercado não pode trabalhar eficientemente'', explica.

O obstáculo, lembra o economista, é que nem a Europa, nem o Japão estão suficientemente fortes para liderar o processo de recuperação global no lugar da locomotiva americana.

- Grande parte da Europa se tornou ineficiente, e está lenta no crescimento da produtividade e criação de empregos. Quanto à crise japonesa, ela ainda está em curso e as políticas voltadas para solucioná-la não têm funcionado.

[12/SET/2002]

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