Estudo da Austin Asis para o Jornal do Brasil demonstra que instituições foram as maiores beneficiárias do Plano Real
Os maiores beneficiários do Plano Real foram os bancos. As 30 maiores instituições financeiras mais que dobraram seus lucros no governo Fernando Henrique Cardoso. Um estudo feito especialmente para o
Jornal do Brasil, pela Austin Asis, uma das maiores do país especializada em análise de balanços de instituições financeiras, mostra que os bancos já acumularam na era FH pouco mais de R$ 21 bilhões em lucros.
É uma montanha de dinheiro suficiente, por exemplo, para construir um milhão de casas populares. Daria também para sustentar a Previdência Social por quatro meses seguidos. Equivale a um ano da receita da União com a arrecadação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Essa soma é, curiosamente, igual à concedida pelo governo em socorro de bancos com problemas de caixa, o chamado Proer.
Lucros dobraram - A Austin Asis mostra que o lucro dos 30 maiores bancos cresceu 313% de dezembro de 1994 até dezembro do ano passado. Ou seja, aumentou mais do que duas vezes. Em dezembro de 1994, após o lançamento do Plano Real, o lucro desses grupos financeiros foi de R$ 2,17 bilhões, saltando para R$ 8,98 bilhões em dezembro de 2000. Pelos resultados já divulgados nos noves meses, 2001 será o melhor ano dos bancos na era FH.
''A inflação acabou, mas os bancos acharam outras formas de ganhar muito dinheiro'', analisa Erivelto Rodrigues, sócio da Austin Asis e autor do estudo. Ele explica que boa parte dos lucros dos bancos pode ser justificada pela diferença entre o dinheiro que os bancos pegam no mercado e quanto ganham ao emprestar para empresas e pessoas físicas. É o que os analistas chamam de altos spreads. O ganho bruto dos bancos brasileiros com financiamentos para empresas é de 30% e de 63% no caso das pessoas físicas. Em países desenvolvidos, como nos Estados Unidos ou na Inglaterra, por exemplo, esse ganho fica entre 5% ao ano e dificilmente ultrapassa os 10% ao ano.
Tarifas - O professor Alberto Borges Matias, da Unicamp-Ribeirão Preto, constata outro dado interessante sobre a performance dos bancos nos últimos anos. ''A maior parte do ganho não veio da operação em si, mas principalmente de ganhos com o câmbio, como aconteceu este ano e na desvalorização de 1999 e pelo não pagamento de Imposto de Renda'', diz. Quando um banco compra outra instituição que tem prejuízo - como aconteceu na incorporação de vários bancos estaduais - é possível abater o pagamento do Imposto de Renda.
Outro fator que tem contribuído para aumentar o ganho dos bancos é a cobrança de tarifas dos serviços prestados. Depois que a estabilização da economia botou por terra a ciranda financeira, promovida pela inflação, os bancos passaram a ganhar com eficiência, que foi traduzida pelos preços das tarifas bancárias. De acordo com o analista da Lopes Filho, Joel SantAnna, 90% dos custos do Itaú, por exemplo - que já lucrou R$ 2,1 bilhões até setembro deste ano-, são cobertos pela cobrança de tarifa.
Os bancos se justificam. ''Este é um item que estimula a competitividade. Mas é um diferencial de qualidade'', justifica o diretor de Planejamento e Controle do Unibanco, Fernando Santoro. O executivo argumenta que de 1994 para cá houve várias mudanças significativas no sistema financeiro nacional, com a quebra de algumas instituições e venda de outras, inclusive públicas. Esses eventos, continua, acabaram por gerar a expansão no número de agências e de clientes. ''Sem falar no aumento do giro dos clientes, até pela própria abertura do mercado. Tudo isso gera mais tarifas para os bancos'', completa.