BRASÍLIA -
Há políticos demais na cúpula da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e os interesses dos industriais estão ficando em segundo plano. Essa é a visão de vários líderes empresariais nacionais, como o gaúcho Jorge Gerdau, presidente do Grupo Gerdau e o baiano Emílio Odebrecht, do grupo Odebrecht.
Na semana passada, ambos estiveram em Brasília. Pediram ao presidente da CNI Fernando Bezerra, senador (PMB-RN), que renuncie ao cargo, o mais rapidamente possível. Bezerra, obviamente, não gostou. Não se trata de um ''golpe de estado'', pois o senador será obrigado a sair da presidência da confederação em poucas semanas, logo no início do ano que vem.
Vai tentar se candidatar ao governo do Rio Grande do Norte, onde sua vida política não está fácil, desde que foi obrigado a renunciar ao Ministério da Integração, em meados deste ano. Saiu sob suspeita de envolvimento em desvio de dinheiro público administrado pela recém-extinta Superitendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).
A pressão faz parte do jogo político da sucessão na presidência da CNI. Muitos empresários criticam o comportamento da atual diretoria, sob comando de Bezerra. Alegam que ela e seus milionários recursos (cerca de US$ 50 milhões de orçamento anual) está sendo conduzida para atender interesses políticos dos parlamentares que comandam a entidade.
Além de Bezerra (PMDB-RN), dois vice-presidentes da entidade, Carlos Eduardo Moreira Ferreira (PFL-SP) e Armando Monteiro (PMDB-PE), são deputados federais. O terceiro, Stefan Bogdan Salej, presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) planeja se candidatar a um cargo no legislativo em 2002.
Os empresários da oposição, liderados por Gerdau e Odebrecht, contam com o discreto apoio de outros como os presidente das federações das indústrias de São Paulo, Horácio Piva, e do Rio de Janeiro, o Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira.
Vieia, da Firjan, chegou a propor a criação de uma entidade alternativa para representar o empresariado, a CED, (Câmara Empresarial para o Desenvolvimento). Mas ficou apenas no papel, depois de constatar que a maioria do empresariado e seus sindicalistas insiste na manutenção da unidade da CNI. Floresce, no entanto, a intenção de reformar o regulamento da entidade, para impedir políticos com mandato em postos de comando. Querem, em síntese, menos política e mais negócios, ou melhor, mais eficiência na defesa dos interesses dos que fazem negócios.
A briga é antiga. A última delas foi sobre a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que cria a Contribuição sobre Intervenção de Domínio Econômico (Cide), um novo imposto que vai ser cobrado sobre os combustíveis. A Firjan, liderada por Gouvêa, um dos sócios da distribuidora Ypiranga, defendia que a contribuição fosse cobrada sobre produtos e serviços importados, não apenas combustíveis, posição defendida também pelo governo federal.
A ala ''política'' da CNI, liderada por Moreira Ferreira e Monteiro, era contra. Alegavam que o novo imposto iria encarecer a produção. Com o controle das decisões na CNI, acabaram ganhando e o lobby da entidade sobre a emenda constitucional ficou restrita ao mercado de petróleo.
Procurado pelo Jornal do Brasil, o empresário Jorge Gerdau evitou comentários sobre o assunto. Disse apenas que busca o consenso. ''Defendo o entendimento'', afirmou. Mas a briga vai continuar até o dia 15 de novembro. Essa é a data final para apresentação dos candidatos à presidência da CNI em 2002. A maioria das 27 federações que compõem a entidade defende a apresentação de uma chapa única, apoiada por Bezerra, para demonstração de ''unidade'' dentro da CNI.
Mas até lá a briga vai esquentar. Na liderança estão justamente os dois deputados Armando Monteiro e Carlos Eduardo Moreira Ferreira, agora rivais na disputa. O paulista, ex-presidente da Fiesp, tem apoio de Gerdau, do presidente do grupo Votorantim Antônio Ermínio de Moraes, da Federação de indústrias da Bahia e Rio Grande do Sul. Monteiro é o preferido do atual presidente Fernando Bezerra e tem a simpatia da maioria dos representantes das federações. Mas as federações do Sul e Sudeste querem tirar a presidência da CNI das mãos dos nordestinos, que há 50 anos estão no comando da entidade.