Alta do dólar faz empresas buscarem similares nacionais para baixar custos e ajuda a reduzir dependência tecnológica
O tão sonhado programa de substituição de importados por produtos nacionais nunca esteve tão atual. O curioso é que o impulso não aconteceu por conta de um programa oficial, mas principalmente pela alta recente do dólar, que já acumula valorização de 41,01% no ano. A grande vantagem será sentida na balança comercial, reduzindo gastos com importação e a dependência tecnológica.
De acordo com projeções do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, se nada for feito, apenas as importações de componentes eletrônicos chegarão a US$ 7 bilhões em 2005. No ano passado, a conta chegou a US$ 4 bilhões, contra US$ 60 milhões de exportações dos mesmos itens.
Em reais - Nos últimos meses, várias empresas partiram em busca de produtos nacionais que possam ter qualidade igual aos concorrentes globais, com a vantagem de serem cotados em reais. Os casos se multiplicam em telecomunicações, eletroeletrônica e informática.
A Siemens, uma das pioneiras no trabalho de substituição de importados, chegou à surpreendente marca de 50% para nacionais e importados na unidade de telecomunicações em Curitiba (PR). Na divisão médica, no Rio, foi reativada a linha de montagem depois de três anos apenas importando, para produzir um aparelho de raio-X de alto grau de resolução com 70% de nacionalização.
''Quem não buscar essa estratégia corre o risco de ficar fora da realidade do mercado'', diz Éder Machado, diretor industrial da fábrica de produtos para telecomunicações da Siemens no Paraná. A divisão médica sentiu isso na prática. ''Estávamos perdendo mercado com o importado e agora estamos de novo na briga'', orgulha-se Roberto Braga, gerente de marketing da área médica da Siemens, que já montou 30 aparelhos de raios X, o Multix.
Economia - O caso da Siemens é curioso: o programa de nacionalização de insumos existe há 25 anos, e é a ''menina-dos-olhos'' da multinacional. Não é para menos. Só as importações do grupo em equipamentos de telecomunicações pesavam cerca de US$ 300 milhões na balança comercial brasileira.
A saída foi chamar fabricantes nacionais, mostrar 476 itens que poderiam ser produzidos no país e ver quem se habilitava. A meta é, em dois anos, reduzir para um terço o peso dos importados. A economia com todo esse esforço chegará a US$ 10 milhões este ano.
Carona - Os fabricantes nacionais que pegaram carona nessa onda não se arrependem. Segundo o diretor de marketing e vendas da Multek Brasil, Fernando Guerra, multinacional que produz placas de circuitos impressos - equipamentos de alta complexidade para o setor de telecomunicações -, foram necessários investimentos de cerca de US$ 5 milhões para atender os requisitos dos principais clientes do setor. Um deles foi a Siemens, que nacionalizou 90% das placas de circuito impresso para centrais telefônicas.
Há exemplos em outros segmentos. A coreana LG inaugura, em 8 de novembro, uma fábrica de aparelhos de ar-condicionado na Zona Franca de Manaus. Antes, os aparelhos eram 100% importados. O investimento é de US$ 15 milhões, só na montagem da fábrica, que irá gerar 200 empregos. ''Vamos disputar a liderança do mercado em dois anos'', prevê Osmane Dias Correia, gerente nacional de vendas da LG.
A Varig dará, esta semana, mais um passo rumo à nacionalização do seu serviço de bordo. Preocupada em formar uma rede de fornecedores que reduzam sua dependência dos importados, a companhia aérea recorreu até à internet para encontrar fabricantes nacionais. A empresa vai pedir a cotação de preços para 18 produtos comprados fora do país, entre os quais, a manta dos passageiros.
Meta - A empresa tem uma meta. Pretende, até o final do ano, reduzir a apenas 20% a presença dos importados no seu serviço de bordo. Essa participação está em 50%, informa o gerente-geral de Serviço de Bordo da Varig, Antonio Sergio Marques de Oliveira. ''Precisamos desenvolver a indústria nacional para que tenhamos opções. Às vezes, ficamos presos a um grande fornecedor estrangeiro, por falta de um brasileiro. Até porque, por incrível que pareça, no caso do plástico, o importado sai mais barato'', diz.
A estimativa é que a empresa economize algo em torno de US$ 5 milhões por ano ao reduzir sua dependência dos produtos estrangeiros. Entre os importados da Varig há, naturalmente, equipamentos eletroeletrônicos. O fone para o sistema de música e vídeo, ''que elimina ruído externo'', não tem par nacional, segundo o executivo.
Em informática, a lei ajuda na nacionalização, mas as empresas estão procurando avançar ainda mais nesse trabalho. Na Compaq, fabricante de computadores, foram feitas parcerias estratégicas com fornecedores nacionais que passaram a desenvolver produtos específicos para a empresa. De caixas de papelão a fitas para embalar, passando também por diversos componentes eletrônicos. ''O câmbio não foi o principal fator, mas ajudou a intensificar essa busca de redução de custos'', explicou Hugo Valério, diretor de assuntos corporativos.
Ele lembra que, em alguns casos, quando envolve altíssima tecnologia, a exemplo dos chips, a única saída é importar. ''Envolve escala e não há como uma empresa dessa, hoje, vir para o Brasil porque não tem mercado'', explica o executivo. Para atrair esses investimentos seria necessário utilizar o Brasil também como plataforma de exportação. Entram aí os programas que o governo está desenvolvendo para incentivar ainda mais a substituição de importação.
(*) Colaborou Janaína Vilella