BRASÍLIA -
A guerra não vai atrapalhar as exportações brasileiras para o Oriente Médio. Pelo contrário, para governo e empresários, pode até ajudar. A expectativa é que o Brasil consolide a conquista do mercado entre árabes e demais habitantes da região: tradicionais comerciantes que compram e vendem de tudo. De lá o Brasil adquire petróleo, combustíveis, receptores de celulares e ferramentas.E vende açúcar, soja, carne bovina e de frango, milho, móveis e até lingerie.
É isso mesmo, roupa íntima feminina. As mulheres árabes descobriram os sutiãs e calcinhas ''Made in Brazil''. Mas não foi só a lingerie brasileira que fez a cabeça dos árabes. Em 2001, eles descobriram mais produtos brasileiros. Até o ano passado, o Oriente Médio era a região que menos comprava mercadorias do Brasil. Este ano, turbinado pela alta do dólar e liderado pelas vendas de frango e açúcar, tudo mudou. De janeiro a agosto, as exportações para a região chegaram a US$ 1,2 bilhão, um crescimento de 51,4% sobre igual período do ano passado. Além disso, as relações comerciais entre as partes alcançou superávit acumulado de US$ 234 milhões, 35% do que o país obteve até agosto.
Dianteiras - Com o salto, o Oriente Médio saiu da ''lanterna'' e ultrapassou a África e a Europa Oriental entre os principais destinos dos produtos brasileiros. Em valores absolutos, as vendas para o Oriente Médio ainda estão longe dos grandes compradores do Brasil - as exportações para os Estados Unidos, por exemplo, foram oito vezes maiores no período. Mas é um mercado gigantesco ainda inexplorado pela maioria dos exportadores brasileiros. Os países da região importam quase US$ 200 bilhões por ano e o Brasil tem menos de 1% desse bolo. ''A maioria desses países ainda conhece o Brasil só como terra do futebol e não do açúcar ou da soja'', afirma o gerente da Agência de Promoção de Exportações (Apex) Hélio Mauro França.
Aos poucos, essa situação está sendo revertida, argumenta França. Embora seja difícil fazer previsões, ele tem observado que as consequências negativas da guerra sobre o comércio tendem a ficar restritas ao Afeganistão, sem afetar os negócios com a maioria dos países muçulmanos. Ele reconhece que a instabilidade pode perturbar as transações comerciais, mas não prevê queda significativa para as exportações brasileiras. ''A situação oferece riscos e oportunidades, temos que aproveitar as chances'', afirma o gerente da Apex.
Propaganda - A saída é intensificar o marketing dos produtos brasileiros e aumentar o valor agregado das mercadorias exportadas para o Oriente Médio. A pauta de exportações para a região ainda é calcada em commodities (produtos primários), como açúcar e milho. A Embraer, o maior exportador brasileiro no ano passado, ainda vende pouco para os países da região, que deverão passar em breve a comprar aeronaves de pequeno porte, depois da reestruturação do setor de aviação local. Mas alguns exportadores de manufaturados já começam a se mexer. A Volkswagen fechou contrato para entregar 700 ônibus para a Arábia Saudita. A Marco Polo anunciou que vai exportar 1,5 mil caminhões para a região até 2002.
O presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB), Paulo Sérgio Atallah diz que o Brasil pode ocupar o espaço de produtos americanos nos países árabes, já que a rejeição dos consumidores locais aos Estados Unidos está muito forte durante a guerra.
Atallah cita o exemplo do frango brasileiro, de excelência reconhecida entre os consumidores árabes. O muçulmano, por questões culturais, não compra frango abatido com sofrimento, que tenha liberado enzimas na hora da morte. Só aceitam frango abatido instantaneamente - uma técnica chamada ''Hallal''. ''O Brasil faz o Hallal mais bem feito do mundo'', afirma Atallah. Além disso, diz, a oposição dos árabes aos americanos na guerra tem feito o frango francês - principal concorrente do brasileiro - a sobrar nas prateleiras.