Domingo, 7 de Outubro de 2001
A última semana de Zylbersztajn

Diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo deixa o cargo com campanha embalada por Gilberto Gil

RICARDO BOECHAT E ISABEL CLEMENTE

João Paulo Engelbrecht
Zylbersztajn

Zylbersztajn encerra sete anos de carreira pública, tendo como marco acabar com o monopólio da Petrobras

Foram três anos e dez meses à frente da poderosa Agência Nacional do Petróleo (ANP). O engenheiro David Zylbersztajn, 46, começou a esvaziar as gavetas e já levou para casa os CDs que mantinha no gabinete. A mudança ocorre aos poucos, para evitar uma saída espalhafatosa, cheia de caixas, na despedida que encerrará ''para sempre'', dia 15, sua carreira no setor público. ''É mais do que cansaço, é fadiga de material'', diz, queixando-se das agruras de servidor.

Há três meses, ele deixou outra posição de inevitável prestígio: a de genro do presidente da República. Zylbersztajn separou-se de Beatriz, filha de Fernando Henrique Cardoso, após 15 anos de casamento . Pouco tempo depois, a imprensa deu retumbância inesperada a seu namoro com a executiva Maria Sílvia Bastos Marques, presidente da Companhia Siderúrgica Nacional. ''Se eu fosse jornalista, também publicaria'', confessa. ''Mas, do outro lado da notícia, achei a repercussão um pouco exagerada''.

Ele contesta os boatos de que o divórcio esfriou sua amizade com o antigo sogro. ''Estive com o presidente nas últimas duas semanas e não rolou nenhum estresse, muito pelo contrário. Ele não mistura as coisas. Sempre foi muito elegante.''

As queixas, o demissionário presidente da ANP dispara contra as amarras do serviço público (''é como jogar vôlei com caneleira de chumbo''), as pressões políticas (''todos os partidos faziam pedidos, até o PT e o PCdoB'') e o estigma que persegue o funcionalismo (''essa idéia absurda de que o servidor é malandro me saturou'').

No balanço de sua gestão, Zylbersztajn não esconde a vaidade. Classifica como ''vitória do bom-senso'' o fim da resistência da sociedade à quebra do monopólio da Petrobras, processo que ele conduziu. Lembra que sua equipe arbitrou ''sem uma única denúncia de favorecimento'' decisões envolvendo investimentos de quase US$ 100 bilhões para dez anos e considera que passou no ''teste da janela'':

- Posso botar a cara na rua sem temer acusações de qualquer tipo - comemora.

Para o cargo que está deixando, Zylbersztajn gostaria de ver indicado um técnico. Mas se recusa a especular nomes. ''É uma decisão do presidente da República'', controla-se. Ainda assim, seus assessores apostam que o nome mais cotado é o do também engenheiro Júlio Colombi, um dos atuais diretores da agên cia. ''Não confirmo, nem desminto'', diz o diretor-geral. ''Só acho que a indicação será anunciada no mesmo dia da minha saída''.

Para Zylbersztajn, a ANP precisará de permanente proteção do Palácio do Planalto e fiscalização da imprensa. ''Todos os interesses que circulam no mundo do petróleo são monumentais. Nós conseguimos criar uma blindagem para evitar influências indevidas sobre nossas decisões. Sei que no atual governo as coisas continuarão assim. Tomara que não mudem depois.''

Das pessoas com quem conviveu, ele destaca o presidente da Petrobras, Philippe Reichstul. ''Tivemos muitas arestas, por causa da abertura do mercado'', relembra, acrescentando que tudo está superado. ''O Reichstul é uma pessoa criativa, inteligente. N ão veio para fazer mesmice.''

Durante a quarentena - quatro meses em que continuará recebendo salário, mas estará proibido de trabalhar nas áreas em que atuou -, Zylbersztajn vai dar aulas. Foi convidado pela Unifacs, de Salvador, e tentará conseguir turmas na PUC do Rio. Também pretende descansar, voltar a cozinhar (''gosto muito''), jogar ''peladas'' às sextas-feiras com os amigos do ''Casseta e Planeta'' e pensar no futuro, claro.

Quando voltar ao mercado, Zylbersztajn pretende sobreviver como especialista em identificar oportunidades empresariais, análise de risco e montagem de estratégias. ''Só não quero ser chamado de consultor'', afirma. ''O que vou fazer é muito diferente''.

Em sua derradeira semana no atual emprego, o diretor-geral da ANP vai consumar seu último projeto: uma campanha para racionalização do consumo de combustíveis, com Gilberto Gil na trilha sonora. ''Teve gente do PSDB reclamando porque escolhi um músico que apóia o Lula. Não dei bola. Disse a eles que, além de adorar o Gil, nunca tive vocação para Torquemada.

Anterior Próxima



E-MAILS E TELEFONES :: EXPEDIENTE
Copyright© 1995, 2001 ,Jornal do Brasil, Primeiro Jornal Brasileiro na Internet

 
Versão para imprimir   Enviar por e-mail
 
 

PÁGINA DOIS
À sombra de Schindler
Viúva de Oscar morre aos 93 anos como a desconhecida salvadora de judeus

C O L U N A S
Economia.net

Cartas dos Leitores