Domingo, 5 de Agosto de 2001
PT flerta com o mundo do capital

Petistas iniciam maratona de encontros com banqueiros e empresários para detalhar sua alternativa econômica para o país

SÔNIA ARARIPE

Manoel de Brito
Guido Mantega

O economista Guido Mantega: “O PT mudou, amadureceu, mas não abrimos mão de alguns pontos que julgamos inegociáveis”

O Partido dos Trabalhadores (PT) não é mais o bicho-papão que parecia aos olhos do mercado financeiro e de empresários. Nunca houve tanto interesse de bancos - nacionais e estrangeiros - e empresas em conhecer de perto o que pensa e o que é o PT de hoje. São encontros fechados, mas não secretos, reunindo esses interlocutores, o presidente de honra do partido, Luiz Inácio Lula da Silva, e seus principais assessores econômicos.

Nos três últimos meses, Lula esteve na Embraer, conhecendo os jatos brasileiros que estão tirando o sono dos concorrentes canadenses da Bombardier; almoçou com a cúpula da empresa de origem espanhola Telefônica e expôs seu programa para o Banco Bilbao Vizcaya (BBV Banco). O economista Guido Mantega e o deputado federal Aloizio Mercadante, braços de Lula na área econômica, também têm se encontrado com vários interlocutores, como, por exemplo, do Citibank e do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

Nova cara - O interesse de empresários e banqueiros em ver a cara nova do PT é crescente. Pode ser medido pela quantidade de fax que chegam todos os dias aos representantes do partido convidando Lula e sua equipe para palestras, almoços e encontros. ''Como a agenda de Lula é intensa, não damos conta de tantos convites'', diz o economista Guido Mantega.

O novo PT procura assegurar aos banqueiros e empresários que os contratos serão respeitados, que não dará calote nas dívidas interna ou externa, será mantida a austeridade fiscal e o regime de metas de inflação. ''O PT mudou, amadureceu. O Brasil mudou. Mas não abrimos mão de alguns pontos que julgamos inegociáveis'', frisa Guido Mantega.

Discurso ambíguo - O problema é que essa mudança do PT não é percebida pela maioria dos interlocutores como conclusiva. E ainda parece longe do ideário defendido pela maioria do sistema financeiro. Um executivo de banco estrangeiro que acompanhou uma dessas reuniões, mas prefere não ser identificado, alerta que do discurso para a prática parece existir um grande espaço de manobra para o PT.

''O programa pode ser bem intencionado. Mas as idéias são infantis, inocentes do ponto de vista econômico'', conta o economista.

Para esse interlocutor, o PT ainda assusta principalmente porque, nas entrelinhas, defende o fechamento da economia e o aumento dos gastos públicos e contesta a necessidade de superávits primários (receitas menos despesas, excluídos os gastos com juros).

''Idéias dos anos 60'' - Se há quem tema, no mercado financeiro, aparecer atacando publicamente o partido, as críticas veladas podem ser bem expressas pelo discurso recente do economista Edmar Bacha, pai dos Planos Cruzado e Real e presidente da Associação Brasileira dos Bancos de Investimento (Anbid). ''O PT agora, pelo menos acerta os continentes. Mas tem idéias ainda dos anos 60'', tem dito Bacha.

O deputado federal José Genoíno também tem participado de algumas dessas reuniões. Ele conta que o PT não é mais visto como ''bicho-papão'', mas está longe de ter se transformado em ''cachorrinho de madame do empresariado''. E conta que alguns desses encontros mais parecem esgrimas verbais.

Pontos ''inegociáveis'' - ''São debates duros. Não queremos ser o PT bonzinho, que faz concessões. Sabemos o lado da mesa que sentamos. Há alguns pontos que são inegociáveis, como a melhor distribuição de renda e a diminuição da vulnerabilidade externa'', frisa Genoíno.

Durante estas reuniões, banqueiros e empresários fazem muitas perguntas sobre a capacidade administrativa do PT. E, volta e meia, surge a discussão se o PT no poder não enfrentaria uma crise de governabilidade.

Governabilidade - Lula tem falado aos banqueiros e empresários sobre os exemplos, que ele avalia como muito bem-sucedidos, das administrações do PT, seja nos governos estaduais ou em prefeituras. O presidente de honra do PT responde que o partido está sim, bem preparado, para dar passos mais importantes. E também contesta a tese sobre uma possível crise de governabilidade.

''Não admitimos essa tese. Respondo para os empresários que a esquerda não estava no poder nos últimos 40 anos, quando foi desenhado esse modelo perverso de distribuição de renda e baixo crescimento que está em vigor'', diz o deputado José Genoíno.

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