A falta de luz vai fazer com que os trabalhadores tenham muito mais dificuldade para ver qualquer mudança nos seus contracheques. É que o racionamento de energia vai refletir diretamente sobre as mesas de negociações salariais, diminuindo reajustes e trazendo de volta propostas como bancos de horas e suspensão temporária do contrato.
''Isso se houver campanha salarial, porque na situação que estamos vivendo não dá nem para falar em salário. O importante é salvar os empregos'', diz o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho. O professor de Economia do Trabalho da Universidade de Campinas, Claudio Dedecca, também traça um cenário bastante negativo. ''A perspectiva de recuperação dos salários este ano é péssima. Os próprios sindicatos vão ter que substituir a discussão de reajuste por proteção do emprego. Não há motivos para haver nenhuma expectativa positiva'', afirma.
Suado - Como os professores de São Paulo têm data-base em maio, o economista usa sua própria situação como exemplo prático. ''As universidades paulistas recebem 11,2% da arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e por causa da perspectiva de queda da arrecadação, foram muito conservadoras na negociação. Em vez dos 13% reivindicados, conseguimos 6% muito suados.''
É um efeito negativo também já captado na sede da Central Única dos Trabalhadores. ''A partir do segundo semestre do ano passado, as negociações vinham sendo um pouco melhores, mas de 15 a 20 dias para cá, as dificuldades começaram'', disse João Felicio, presidente da CUT.
Horizonte nebuloso - E se está ruim hoje, vai ficar pior nos próximos meses. Ninguém tem dúvida de que os mais afetados pelo ''racionamento salarial'', serão os trabalhadores que têm data-base no segundo semestre, ou seja, a maioria absoluta dos assalariados brasileiros. Praticamente todas as categorias que fecharam acordo este ano tiveram algum ganho real. Mas quem for fechar a partir de julho está lascado. Só na base da Força há cerca de cinco milhões de trabalhadores com data-base no segundo semestre, informa Paulinho.
Na base da CUT, a estimativa é que outros 12 milhões de assalariados tentem fechar acordo no segundo semestre. É a época das campanhas salariais de bancários, metalúrgicos, químicos e petroleiros, categorias cujo peso a CUT planeja transformar em arma para tentar proteger os salários.
''São categorias com grande poder de fogo que não vão aceitar que os patrões usem essa história de racionamento para não dar aumento. Já sabemos disso, vamos partir para a greve'', avisa Felicio.