O ministro da Economia da Argentina, Domingo Cavallo, anunciou que apresentará ao Congresso projeto de lei flexibilizando o duro regime cambial do país (prevê que um peso argentino corresponda a um dólar). A intenção é ampliar a correspondência de modo a incluir o euro (moeda comum de 12 países da comunidade européia). Pelo novo regime, a cotação do peso passaria a ser igual a 50 centavos de dólar somados a 50 centavos de euro.
Apesar de quase um terço do comércio exterior argentino ser feito com o Brasil, Cavallo descartou que o real possa integrar a cesta de moedas da lei de conversibilidade. ''(O real) tem ingredientes inflacionários e se desvaloriza permanentemente. Só se pode levar em consideração moedas globais de altíssima qualidade e com liquidez mundial, como o dólar e o euro'', disse.
Recado - Cavallo adiantou que a lei já está pronta, mas antes de apresentá-la oficialmente pretende discuti-la com os legisladores. Uma das pré-condições para o início da mudança será a cotação da moeda comunitária européia se igualar a do dólar (hoje, o dólar vale 1,12 euro), o que, mesmo sem garantias, só deve acontecer no segundo semestre deste ano. ''Se os líderes congressistas acharem que devem fazer a alteração no câmbio logo, tanto melhor. Assim, os charlatões que falam de desvalorização e dolarização deixarão de perturbar os argentinos'', pontuou.
A conversibilidade - que estabeleceu a paridade entre o peso e o dólar - foi aprovada pelo Congresso argentino desde 1° de abril de 1991, quando Cavallo era ministro da Economia do presidente Carlos Menem (1989/1999).
Desde que aumentaram os rumores de que o regime cambial argentino estaria com os dias contatos, Cavallo vem defendendo que o sistema veio para ficar. ''O bom do atual regime monetário é que não pode haver nenhuma decisão arbitrária ou que surpreenda. A conversibilidade é um prenúncio do valor futuro da moeda argentina, que só pode ser modificado pelo Congresso'', diz.
Eurolização - A inclusão do euro na lei de conversibilidade (que já está sendo chamada no país de eurolização) dependerá, agora, dos congressistas, os mesmos que há poucas semanas deram a Cavallo os superpoderes que ele solicitara.
Antecipando-se a possíveis questionamentos, o ministro da Economia advertiu que ''se durante o debate parlamentar alguém se atrever a mexer na essência da conversibilidade ou no valor do peso, desde já fica claro que o Executivo vai utilizar seu pode veto''.
Como não há uma data certa para as cotações do dólar e do euro se igualarem, a lei a ser apresentada no Congresso prevê uma cláusula que autoriza o Banco Central argentino a incluir o euro na conversibilidade assim que as duas moedas alcancem o mesmo valor. Uma vez que isso ocorra, e como não há garantias que a paridade entre euro e dólar será mantida, o valor do peso argentino flutuará, já que poderá valer mais ou menos que um dólar.
Analistas econômicos argentinos avaliam que a proposta de Cavallo pretende deixar mais estável o comércio exterior do país. Cerca de 25% dos negócios internacionais dos empresários argentinos são com países europeus. Ao mesmo tempo, o anúncio parece esfriar o entusiasmo oficial com a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
O objetivo declarado da medida é recuperar a competitividade perdida pelos produtos argentinos, cujos preços são atrelados ao dólar. Nos últimos anos, como o dólar se valorizou em relação ao euro, os exportadores argentinos perderam competitividade no Velho Mundo.