Os Estados Unidos são a locomotiva da economia mundial pelo menos desde 1995. Sua sede de importações foi decisiva para tirar a Ásia da crise e ajudou as recuperações da Rússia e do Brasil. Mas agora a economia americana está em desaceleração, a Europa e o Japão não mostram o fôlego necessário para substituir os EUA. E o novo presidente americano, George W. Bush, chega à Casa Branca com a legitimidade manchada pelo caos na apuração dos votos na Flórida e por sua derrota no voto popular. Assume o poder num país virtualmente dividido do eleitorado à Suprema Corte, o que indica que pode vir pela frente uma série de crises políticas, com risco de isolacionismo e a tentação de agir unilateralmente.
''Há diversos sinais de desaceleração da economia dos EUA - queda de lucratividade, queda de consumo, com um Natal mais fraco do que no ano passado, menor crescimento da produtividade, menos investimento em novas tecnologias - e os indicadores revelados nos últimos dias são piores do que se esperava'', observa o professor e economista Paulo Wrobel, diretor do programa de Brasil do InterAmerican Dialogue, com sede em Washington.
Ameaças - Wrobel não acredita numa recessão nos EUA, que seria catastrófica para o resto do mundo: ''O crescimento deve cair de 5% ao ano para 2,5% a 3%, segundo as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).''
Bush recebe a maior economia do mundo com inflação estável, desemprego baixo e salários em alta mas com taxa de poupança muito baixa, envelhecimento da população, pressionando a Previdência Social, um déficit comercial anualizado beirando os US$ 400 bilhões e empresas se queixando do baixo nível educacional e da falta de qualificação profissional da mão-de-obra. Os juros estão mais altos, o consumo, os lucros e os preços das ações caíram.
Até agora, Bush só indicou que pretende atacar esses problemas com a fórmula mágica do reaganismo (de Ronald Reagan): cortes de impostos. A esperança é que isto reestimule a poupança e o investimento. O risco é abalar a situação das finanças públicas. Com um superávit de US$ 4,6 trilhões previsto para os próximos 10 anos, a poupança pública está preenchendo o vazio deixado pelo setor privado.
Expectativa - A grande esperança do mercado está no Federal Reserve Board (Fed, o banco central americano). Com uma queda de juros prevista para maio, podendo ser antecipada se a situação se agravar, e uma revolução tecnológica liderada pelos EUA em março, a expectativa do resto do mundo é de que a economia americana mantenha um ritmo saudável.
O ano 2000 foi de grande crescimento da economia mundial, dos investimentos e do comércio, com expansão econômica estimada em 4,9%. O maior impacto de uma crise nos EUA recairia sobre o México, que deve crescer 7% este ano e que atravessa uma revolução democrática com a primeira derrota do Partido Revolucionário Institucional, que estava no poder desde 1929.
Na Ásia, Malásia e Tailândia seriam especialmente abaladas. O Brasil, onde o comércio exterior tem um peso muito menor no PIB, depende do grau de desaceleração dos EUA. Como os EUA precisam de US$ 400 bilhões ao ano para cobrir seu déficit comercial, a expectativa de uma desvalorização moderada do dólar seria benéfica para o Brasil, a Argentina e outras economias latino-americanas.
Convergência - A União Européia também enfrenta uma desaceleração, causada principalmente pela queda no crescimento da Alemanha, sua maior economia, mas Wrobel nota ''uma convergência entre a Eurolândia e os EUA e uma tendência de recuperação nos EUA''.
Já o economista americano Rudiger Dornbusch alerta que o maior problema da economia mundial não está nos EUA mas no Japão, estagnado sob o peso das dívidas podres da bolha especulativa dos anos 80 e o crescimento do endividamento público, até agora insuficiente para reerguer a segunda maior economia do mundo. A dívida pública japonesa já passa de 60% do PIB. Dornbusch prevê mais 10 anos de estagnação e de crescimento medíocre no Japão, a não ser que o país passe por reformas liberalizantes.