Não é tudo, mas o suficiente. A manobra do esquema palaciano para evitar vaia de grevistas não fazia parte do programa de Lula. Aconteceu. Ninguém se lembrou do exemplo clássico de Winston Churchill. Menos de dois meses depois de terminada a segunda guerra, o primeiro ministro foi distinguido na circunstância eleitoral inglesa com uma assoada memorável. Perdeu para os trabalhistas. Mas o que ficou de saldo foi a frase com que Churchill enriqueceu o seu acervo de sabedoria política: ''Feliz do povo que pode vaiar os seus governantes''. Realmente. Mais ainda, isto sim, feliz do governante capaz de ler o sentido oculto dos fatos.
Lula evitou a vaia mas ficou devendo. Todo governo se tem na mais alta conta. Nenhuma oposição se lembra de que o vencedor é o outro. Não passa de sobra das urnas. Pode o governo fazer o que quiser com a vitória mas precisará de competência política para operar como vencedor. Não se sente isso no caso do PT que, pelo retrovisor, insiste em se olhar no passado e para se ver vencedor na próxima eleição municipal.
Respira-se no ar eleitoralmente poluído pela decepção crescente dos eleitores associados à impressão de que, ou o governo Lula absorve de vez o PMDB , ou o PMDB deixará no osso o governo do PT. Consulte-se a respeito José Sarney. O que mudou (possivelmente para melhor) neste país que aprecia a democracia sem limites foi o aparecimento do que hoje se chama de percepção mas já atendeu por outros nomes mais adequados. Perceber em política é desconfiar. A suspeita está solta. De tudo que se vê, desde que o governo completou um ano, ficou a impressão de que o presidente e o PT já se livraram do espectro do golpe de Estado que lhes tirou o sono. Talvez o ocorrido não tenha sido mais do que consciência da culpa que o PT carrega desde quando a democracia cambaleava nos primeiros passos da eleição direta. Surpreendidos pelo sucesso do real (e suas conseqüências políticas), o PT e Lula sustentaram em coro, mas sem eco na sociedade, o refrão - ''Fora Fernando Henrique''. Qual a razão? Vai ver, as mesmas que recaem sobre Lula, embora sem o refrão. É o velho hábito dos apressados em chegar ao poder sem a indispensável paciência de esperar a eleição.
Outro antecedente, este por conta do PSDB. Assim que o presidente Sarney, na encruzilhada de linhas do passado e do futuro, mal completou um ano de governo, Fernando Henrique teve visão e propôs (em entrevista ao JB), uma solução que, para as circunstâncias, levava jeito golpista. Ainda fazendo cerimônia no exercício da Presidência, Sarney venceu a hesitação e apostou no cruzado que esperava na gaveta. Os dois, Sarney e Fernando Henrique, usufruíram da sagrada identidade monetária e auferiram sucesso político por conta. A diferença entre eles ficou na duração e no usufruto político: o cruzado durou um ano e elegeu o PMDB. O real sobreviveu por um mandato inteiro. Foi o crepúsculo dos economistas que deitavam e rolavam quando faltava democracia.
No caso Waldomiro, o PT viu fantasma ao meio-dia. Mas quem poderia ser interessado em liquidar um governo que ruma, de mãos vazias, para a segunda metade do quadriênio? A primeira metade é suficiente. O governo Lula deu o seu recado a quem interessa (aqui e alhures). Ganhou elogios que não garantem votos em eleição municipal. Fez, melhor do que seu antecessor, o chamado dever de casa para impressionar estrangeiros e desagradar brasileiros.
Na condição de neófito no poder, o PT se comporta como órfão de pai e mãe numa casa enorme e vazia. O assoalho do casarão estala pela madrugada e o sobrenatural comparece. Aos novos inquilinos o poder parece casa assombrada. Não é de estranhar que a oposição pareça o diabo em tempo real. O efeito de gritar valeu como tratamento de choque mas será melhor que PT passe à terapia de grupo. Vem do berço sindical a desconfiança. Os petistas se criaram ouvindo histórias de tirar o mandato e o sono.
É sintomático que o PT queira transferir a carga pesada para a conta do governo passado. A história, porém, está cansada de repetir que governo que ficou para trás não elege ninguém. E muito menos reelege. O senador Cristovam Buarque, do PT, fez o elogio de Fernando Henrique na moldura do vazio em que flutua o governo Lula, que devia trocar a sabedoria popular, com que enche os ouvidos dos pobres, por frases capazes de andar com as próprias pernas. De quebra, o senador do PT recomenda a mobilização popular como tratamento político. Mas não faltará, dentro e fora do governo, quem veja segunda intenção na proposta de excitar gente que engrossa a estatística de desemprego. Sente-se o sabor de provocação: ''Apelo ao presidente para ouvir aqueles que lhe fazem oposição (...) e que têm idéias diferentes do grupo que o cerca''. E pediu a Lula para dizer o que pensa e ouvir os que têm a dizer. Não é pedir demais a um governo de frente para o passado e de costas para o futuro.
Num país de memória fraca, por absoluta conveniência, a História não deixa rastro e ninguém se interessa em aprender com ela.