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Se tentar, será o desastre


Financeiramente correto a quem vê de longe, como espectador, mas politicamente insatisfatório aos olhos dos eleitores que ocupam o melhor lugar no espetáculo empresado pelo PT - é assim que o Brasil se apresenta, um ano e quatro meses depois, para enorme desgosto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os sinais emitidos desde a primeira candidatura, na primeira eleição direta, deprimiram as comemorações do aniversário do governo Lula. O mal-estar decorreu do princípio infalível que a democracia adotou por falta de melhor. O vencedor é quem recebe mais votos dentre os pretendentes. E a diferença se destina a fazer face ao prejuízo que o tempo debita aos governantes, quando do prometido em campanha se deduz o cumprido no governo.

Lula esbanjou votos e expectativas no primeiro ano mas não se lembrou do conselho da Light aos usuários de energia: sabendo usar, não vai faltar. Lula não controlou o consumo.

O presidente recebia ovações matinais e no fim do dia as pesquisas o louvavam. Hoje o olhar presidencial está cansado do espetáculo que não começa. Quem sintoniza nas ondas pessimistas pode reparar que o presidente não é o mesmo. Deixou de ser um e não se encontrou no outro, até agora.

Não podia pagar o que prometeu, por três vezes, aos que não o elegeram e falhar com os que resolveram o impasse nas urnas. O caso mudou de figura na quarta e última oportunidade. Como as pesquisas garantiam a vitória, o governo ficou com as duas tendências e se tornou ambidestro. Daí a confusão de sentimentos.

Há indícios de esgotamento da paciência presidencial. -Principalmente com os radicais que querem passar já à ação. Mas Lula é mais da palavra. Esta semana ele pediu aos radicais, com bons modos, bom senso, que Descartes considerava a mercadoria mais bem distribuída no mundo. Tanto que ninguém reclama de ter cota pequena. Os que estão descontentes com o governo Lula não podem ser ressarcidos, porque não existe devolução do voto. A democracia não devolve mercadoria que não atenda à conveniência do freguês. Ainda não se fez da democracia bem durável como os eletrodomésticos, feitos para vida efêmera. Duráveis enquanto são pagas as prestações. Lula está certo. Custa pouco recomendar bom senso. Tem razão não porque a razão esteja com ele, mas porque é governo. Da mesma forma que o presidente muda mas tudo continua como estava, exceto na aparência. O instinto vale mais do que a ciência política. Não é privilégio de governo prometer uma coisa e fazer outra. A oposição também é assim. Lula pode reconhecer que, quando nada, aprendeu que não se deve ir tão longe que fique impossível voltar. Já deve ter percebido que não tem volta também na guinada levemente à direita, que lhe valeu a vitória. Se tentar, será o desastre.

É mais fácil retroceder da esquerda do que da direita. Aprender com os próprios erros pode ser saudável mas tem custos, sobretudo eleitorais. Quanto menos errar, melhor.

Erros alheios custam menos e rendem mais. Pedro Nava vivia repetindo que a experiência tinha tão pouca serventia quanto espelho retrovisor. Só serve para fazer marcha a ré. Assim como não se troca de comando no meio da batalha, também não se altera programa de governo no meio do mandato.

Sinais de irritação presidencial estão sendo captados, analisados e processados com rigor científico, sem tirar o olho do mercado. Democracia real é assim mesmo: reproduz a mesma sensação de carregar água com as mãos em concha. Depois de aconselhar os sem-terra, esta semana Lula viu entrar em cena novos personagens, esses sem-teto que querem casa e não bom senso. O país tem terra demais e casa de menos.

Os sem-terra e os sem-teto são farinhas mas de sacos diferentes. As reformas em que o Planalto se empenhou e o Congresso digeriu com estômago de avestruz podem ser comparadas ao tonel das Danaides, que foram condenadas a encher um barril furado. Era castigo para toda a eternidade. Político, no entanto, pensa a curto prazo. O prazo é a eleição.

Por sua vez, o antigo Lula sindical fazia lembrar o castigo de Sísifo, condenado por Júpiter a empurrar morro acima uma enorme pedra, como punição por ter enganado a morte. Quando estava quase no topo, a pedra fugia ao seu controle e voltava ao pé da montanha. Tarefa sem fim e sem objetivo. Felizmente para Lula, a mitologia fica mais em cima.


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[25/ABR/2004]


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