Quando o Brasil não ia tão bem como fazia crer, nem tão mal como merecia, o governo podia não governar mas fazia de conta. A oposição não se opunha, mas gesticulava. Não era necessário mais do que isso. A maioria dos cidadãos se dava por satisfeita. Minoria não pesa.
Não tem a assinatura do autor, mas, é fora de dúvida, encenamos o Pirandelo possível. Como nas peças dele, ''assim é se nos parece''. Mas não precisa ser. Hoje, no Brasil, é governo de um lado, oposição de outro, mas com papéis trocados. Na posse de novo ministro, o presidente de um partido que vive à sombra de governos, não cresce nas urnas, mas aumenta a bancada entre uma eleição e outra, pediu a cabeça do ministro da Fazenda e do presidente do Banco Central.
Pirandelo à parte, foi assim mesmo. A solenidade oficial no Planalto reuniu só gente de cima. Quem não era presidente da República era presidente de partido ou de comissão. Gente conectada no que o governo tem de melhor, qual seja, cargos bem situados. A oposição saiu em defesa do ministro da Fazenda, que entrou em cena por uma porta enquanto o chefe da Casa Civil saía por outra. Mera coincidência? Talvez não houvesse essa relação entre entrar e sair, mas assim é, se assim parece.
Lamentavelmente o Brasil chegou a uma situação em que, por falta de oposição eufórica, os ataques ficaram por conta dos que não nasceram para o trabalho pesado. Um presidente (de partido), em plena solenidade de posse de um ministro, estraçalha o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central, as torres gêmeas da famosa política econômica do governo Lula. Se assim não foi, pareceu. O presidente propriamente dito, leia-se Lula, levou o desaforo para casa, mas nem assim. Além do noticiário, nada aconteceu. O Brasil civiliza-se.
O passo seguinte foi a oposição, ainda em convalescença do mal de ter perdido o governo, despachar emissário de paz à tribuna do Senado com a missão de outorgar ao ministro da Fazenda o alto título republicano de salvador da economia. Tasso Jereissati parecia senador paulista da República Velha. A dupla Palloci-Meireles manteve a cabeça sobre os ombros e continua solfejando o estribilho da estabilidade que o governo FH comprou e Lula até hoje cobra dos brasileiros. É o espetáculo franciscano dos 15 meses do governo Lula. O Brasil apura traços democráticos com a assinatura de Luigi Pirandelo.
Era solenidade de posse, não terapia de grupo. Quem não era presidente de alguma coisa, fazia papel de vice. A última impressão, se não ocorrer outra melhor, é de que o Brasil andou perto de um buraco que nada tem a ver com o abismo que desempenhou papel importante nas crises passadas. Contribuía para golpes e contragolpes. Ponto para o Brasil.
Dessa vez o abismo ficou longe. Se não é, parece que Lula aprendeu a ouvir sem responder na bucha. Já leva desaforo para casa. Vai acabar providenciando uma escultura com figuras de destaque na oposição que não disse a que veio. Assim é porque parece.
O presidente Lula não se abalou com a rachadura na base de sustentação. Era previsível. O PL, que cresce por fora das urnas, provou que a palavra é livre. Qualquer um pode pedir substituição de ministro. Gente da base de sustentação é paga com nomeação. É o que o PMDB espera, mas demora. Os juros não descem ao nível do chão e as eleições municipais estão longe. Como não podia deixar de ser, ou pelo menos parecer, a técnica de discordar contagiou toda a base aliada. Se o PT pode, por que não? É assim mesmo, e não apenas parece.
O também presidente (ainda que do PL), Valdemar Costa Neto, pediu mudança da política econômica e insistiu na troca do ministro da Fazenda ''por alguém que tenha competência''. Motivo? Nem tudo que é bom para Ribeirão Preto é satisfatório para o Brasil. Mas o PL é a legenda do vice-presidente, função ornamental que encerra hipóteses a considerar com respeito. Nomeações demoradas, como se sabe, não têm boa digestão. O vice José Alencar já percebeu que a vice presidência ficou mais longe da Presidência: pelo contrato de campanha feito com Lula, ele indicaria o ministro dos Transportes. A seu ver, a cláusula valia também para o substituto. Mas Lula nomeou outro. Não se sabe se Alencar perdeu pontos com a cruzada contra os juros ou pela natureza esdrúxula do cargo do qual emana eterna suspeita. Falta conferir, mas parece que a peça mudou com Pirandelo. Entra Palloci em cena e José Dirceu sai sem ser notado. À francesa, como se dizia.