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Mais fácil do que carta enigmática


Reforma de Ministério começa com certa solenidade mas não se sustenta. Logo se alternam desmentidos e confirmações, em tom dubitativo, para que as vítimas desconfiem de que o caso de cada um é terminal. Tudo vem a seu tempo.

A fórmula de retardar a solução final é antiga. Governo quando quer mudar, água quando desce morro e fogo ladeira acima (dizem que moça também) - ninguém segura. O presidente Lula, entre uma e outra (viagem ao exterior), esfria as versões e deixa transparecer algum tédio pelo método. Dá certo? Lula soube esperar. Longe do fim não significa perto do começo. O segundo Ministério fez a prova de maturidade do PT e do presidente para questões domésticas. Negociar, Lula apreendeu nos embates sindicais, mas a arte de demitir foi cursinho de emergência. Quem nomeia, demite. Aprendeu que nomear sem demitir reduz a autoridade. Já que a fila dos condenados a abrir vaga não andava por si, Lula viajou para alguém empurrar os escalados para saltar. Sem pára-quedas.

Não há muita variedade na maneira de abrir vagas para despejo de inquilino de Ministério. O presidencialismo é inesgotável. Nunca funcionou a fórmula ética do sonho de todos os presidentes: um dos condenados (na ilusão de se salvar pelo gesto) propõe um pedido coletivo de demissão. A fórmula ociosa pressupõe unanimidade impossível ou, no máximo, admite uma ovelha tresmalhada que ficaria em posição desconfortável fora do corporativismo. Cada um tem suas razões particulares para exercer o princípio sagrado da exceção. O dia do Fico foi o começo do fim: o mesmo Pedro que ia ser um dia Pedro IV (de Portugal) abriu mão de três títulos para garantir reserva de uma coroa brasileira. Deu três por uma.

Os únicos a tomar a iniciativa de sair foram Miro Teixeira e Roberto Amaral. Sentiram cheiro. Fumaça denuncia fogo por perto. Ficaram moralmente muitos degraus acima da turma. Tudo em pratos limpos. O único senão, de natureza religiosa, foi confessado e a penitente recebeu absolvição mediante devolução. Sem o abaixo-assinado coletivo, os boatos pipocaram como cotação em bolsa de valores em dia de alta.

Vai para José Dirceu o melhor perfil nesse entra e sai, pelo maior risco. No círculo da confiança suprema abaixo de Deus (brasileiro nas horas vagas mas americano nas horas ocupadas), foi quem se destacou. Sobre a cabeça do chefe da Casa Civil, Lula podia ter posto a mão direita para dizer: ''Dirceu, primeiro o teu''.

Não precisava mais. Poder é para quem gosta e não se contenta com as pompas.

Mesmo que tenha sido apenas coincidência, a associação de José Dirceu a primeiro-ministro no presidencialismo permite aos sobreviventes lembrar a historinha em que figuraram o governador de Minas e seu secretário do Interior. Instado a resolver casos políticos do interior, Milton Campos ponderava com bom senso no encaminhamento de pretensões políticas: ''Fale com o Pedro, primeiro''. A oposição passou a reverenciar o secretário do Interior, Pedro Aleixo, como Pedro Primeiro. Dirceu não fica mal como primeiro-ministro, mesmo sem parlamentarismo.

No atropelo dos últimos dias, nunca se esqueceu: ''Quem tem poder é o presidente''. Não era a modéstia mas a astúcia que falava por intermédio dele. Poder é atributo de quem demite e nomeia no ato. Lugar vazio, como acontece na natureza, é para ser preenchido logo, antes que aconteça.

Terminada a operação, lavava as mãos. O ministro da Educação, por exemplo, se agüentava longe dos olhos e do coração presidencial. Nem falava em voltar. Lula ponderou que pelo telefone pareceria crueldade. Mas, informado de que Cristovam Buarque não se mandava de volta nem depois das informações contundentes, e para evitar surpresa, repetiu Getúlio Vargas que demitiu pela mesma via telefônica o seu ministro da Educação, Simões Filho. Aproveitou para mostrar à oposição, como presidente eleito, que o presidencialismo se acomoda bem sem a ditadura.

No auge da confusão, o presidente dizia didaticamente que o chefe da Casa Civil ia ser o anjo da guarda de todos. Aos novos empossadas que lhe pediam orientação, recomendava: ''Converse com o Zé, que vai ser o gestor junto com você''.

É mais fácil de decifrar do que carta enigmática. Já com o pé no avião que o levaria à Índia, Lula se lembrou de bradar - abaixo o excesso de academicismo que botou a perder o Ministério. E decolou.


[01/FEV/2004]


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