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Marco histórico

Wilson Figueiredo

Jornalista

É chover no molhado tanta insistência oposicionista em atirar as primeiras pedra no governo Lula. Intifada à brasileira? Realmente não é fácil passar de oposição a governo e vice-versa, por mais que a rotatividade federal tenha custado altas concessões políticas ao candidato do PT. A chegada da oposição ao poder é o que há de mais parecido com a reversão de turbinas quando os aviões tocam a pista. Que o diga Luiz Inácio Lula da Silva. A proclamação do resultado equivaleu ao momento tenso em que os grandes aviões tocam na pista e acionam as turbinas ao contrário. Na linguagem técnica, chama-se a aterrissagem de ''resolver o problema''. O problema, no caso do PT, veio a ser exatamente o desagrado visível no lado doméstico dos vencedores.

O pouso triunfal do PT em Brasília não foi sereno. Fervilhava a bordo a insatisfação radical, ao lado de indisfarçável alegria semiliberal. Desde quando a candidatura planava nas alturas das pesquisas, havia turbulências no céu e na terra. O combustível neoliberal, de alta octanagem ideológica, facilitou o vôo mas era desancado pelos passageiros da classe radical, temerosos do custo político posterior.

Para os afeitos às derrotas federais do PT, lastreadas pela coerência de não fazer concessões, a dificuldade se transferiu da teoria para a prática. Com a vitória, o pessoal de casa sentiu-se preterido no quebra-cabeça para formação do governo de esquerda. O comandante Luiz Inácio Lula da Silva esquivou-se, em terra e no ar, ao bate-boca que começou acima das nuvens. E não foi apenas em respeito à teoria. O exercício do poder, com toda razão, não pode receber notas antes do fim do governo, enquanto houver tempo para reparar erros e omissões. (Ou mesmo comissões onde houver obras a fazer). Felizmente o governo Lula está longe desse perigo.

Afobada anda a canhestra oposição que as urnas confiaram ao PSDB e ao PFL, este cada vez mais parecido com placa falsa de automóvel roubado, aquele em crise de identidade. São neófitos na arte da oposição, tanto (ou mais) do que o PT em governar. O PSDB usa e abusa do nome ilustre de família, apesar dos escândalos com que a socialdemocracia, a seu tempo, marcou época no Velho Mundo.

Quando parecia que o mundo havia arquivado a socialdemocracia, apareceu o PSDB com disposição de tirar o atraso, sem esquecer o toque paulista. As raízes da socialdemocracia no Brasil estão mais na explosão paulista de 1932 do que na Alemanha do começo do século 20. O PSDB nasceu de semente importada mas se disfarçou atrás das letras, como os índios. Tudo está implícito. Nunca se fala em socialdemocracia mas em PSDB. Antes, por sinal, o inesgotável Leonel Brizola, despojado do Partido Trabalhista, requereu internacionalmente a matrícula histórica mas não a utilizou. A idéia da socialdemocracia continuava em baixa pelo mundo afora mas aqui parecia luxo. E, antes de Brizola, a envergonhada socialdemocracia se apresentou como pessedismo, já devidamente dicionarizado: o PSD (sem o B) optou pelo pessedismo de tantos favores políticos e nenhum reconhecimento.

Desde que veio ao mundo como alternativa não marxista do socialismo possível, o PT insistiu no impossível. Três vezes perdeu. Até que, sem declinar a condição reformista, plantou concessões que, sem assustar os eleitores, viabilizaram o acesso da esquerda pelo menos ao universo dos valores burgueses que soam como novidade no Brasil. O governo Lula está pagando, mas em condições módicas de quem dispõe de quatro anos (prorrogáveis por mais quatro).

Graças ao que, finalmente, aconteceu, o Brasil entrou com o pé direito no século 21 e guarda o esquerdo para a melhor oportunidade enquanto a classe média vai e vem de acordo com a maré. O PT chegou ao poder graças ao comandante Lula, e apesar do contrapeso radical constituído pelos fiadores do marxismo que não ousa confessar-se mas, sem o qual, o recado histórico da esquerda pouco vale.

Pior do que a necessidade que obriga a esquerda a contrair dívida com a direita para chegar ao governo é o sentimento de exílio estampado nos dois esteios da oposição. O PFL e o PSDB pertencem à categoria dos que sofrem de complexo de inferioridade histórica e perdem o rumo quando retirados do poder. Do lado de fora comportam-se como o PT que, do lado de dentro, continua dividido por amor à dialética.

Todos se mostram contrafeitos no papel que a oportunidade lhes deu. O velho PMDB assumiu o papel inferior de filante, sempre pontual na hora do jantar alheio, mesmo sem ser convidado.

Depois de três meses, é inevitável que o PT comece a pensar na reeleição de Lula. E o que passa por oposição, à falta de melhor, o PSDB e o PFL, prefere nem pensar na hipótese: cobram adiantado obras de um governo ainda atônito com a vitória.

Nenhum deles se deu conta de que o PT fez o que podia fazer nas circunstâncias e fincou com a eleição de Lula um marco histórico. Foi a primeira vez que o presidente da República chegou pela esquerda, com toda a relatividade do que seja a esquerda depois do século 20, e por mais concessões que o candidato tenha feito e o eleito vem cumprindo.

[31/MAR/2003]

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