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Um país pintado de branco


Aproveito a brecha do dia tenso, que é mais de notícia do que de comentário, para encaixar as impressões ligeiras, no tom de conversa sem pose, confessadamente superficial, sobre os vinte dias do giro de mais de dois mil quilômetros pelas impecáveis rodovias de Portugal, matando as saudades de quatro anos da última e mais demorada visita e lavando a miopia com a forte imagem de um país que se modernizou, aproveitando a maré das facilidades de financiamentos do euro e escorrega pelo tobogã da crise na hora de pagar as dívidas.

Vamos começar, como convém, pelas boas surpresas; de ruins bastam as nossas: Portugal está lindo nestes dias ensolarados e quentes da explosão de cores da primavera, sem um pingo de chuva, dispensando as capas, os casacos e suéteres esquecidos na mala.

Um país arrumado, com sinais de advertência de inchaço nos engarrafamentos freqüentes no lento trânsito das ruas de Lisboa, do Porto e de cidades médias. E os avisos, que soam exagerados aos nossos ouvidos, de assaltos na confusão das áreas movimentadas ou nos ermos das horas mortas. Não cheguei a testemunhar um único flagrante, o que não desmente o registro dos jornais, das TVs e as recomendações dos policiais.

O tempo era pouco para curtir o amargo contraste entre a nossa incúria de buracos em 75 mil km intransitáveis e a impecável rede de estradas portuguesas, das autovias largas, com duas pistas, de asfaltamento perfeito, em que se desliza sem o ressalto de um único buraco, com sinalização exata de todas as alternativas nas rotundas que facilitam a correção de enganos sem a necessidade de longos retornos, a facilidade no pagamento de pedágios, calculados pelos quilômetros percorridos às estradas estreitas, que serpenteiam pelas grimpas da Serra da Estrela ou da Serra do Mamede e levam a Marvão e ao que restou do seu castelo conservado com capricho.

Por todos os caminhos e paradas, em todos os lugares, de Lisboa a Faro, no extremo do Algarve, subindo pelo oeste até Covilhã, cortando para leste, no rumo do Porto, com paradas em Canas de Senhorim, Marão e volta à Lisboa para os chorados cinco dias de despedida, a gentileza prestante, a amabilidade invariável, a cortesia natural, espontânea do povo português, um dos mais educados do mundo. Não apenas com os brasileiros, mas com um toque especial para o irmão mais moço e estouvado, que fala a mesma língua.

É só pedir uma informação para provocar as reservas inesgotáveis de amabilidade. O motorista de caminhão desce da boléia para apontar o melhor roteiro. Pára um segundo, não parece satisfeito e pede-nos que o sigamos. Dispara em alta velocidade para estacionar na rotunda onde nos espera para indicar, sem risco de engano, a direção certa e seus atalhos.

Uma sábia e inspirada determinação oficial estimula os moradores a pintar as casas de branco, fornecendo a tinta de graça. Quem teimar em escolher outra a cor, paga pela excentricidade. E são poucos, raríssimos. Saindo da capital e das grandes cidades, Portugal é um país caiado de branco, a imagem da limpeza das ruas, das paredes das casas e edifícios, das estradas.

Nem tudo são flores. O tranco de acomodação da comunidade européia aquece as reações ao euro e suas contradições. O cenário de crise chegou quente em Portugal, provocando a reviravolta parlamentarista e a ascensão do polêmico José Sócrates a primeiro ministro, com o clássico receituário restritivo, tão nosso conhecido, cortando nas gorduras e nas carnes magras dos servidores públicos, aposentados e pensionistas, aumentando impostos, pedindo compreensão para os sacrifícios.

O custo de vida dispara e perfura a bolsa do turista com os seus esquálidos reais. Na mágica do câmbio, pagamos R$ 3,50 por euro. Confiram: a diária de hotel de três a quatro estrelas rodopia entre 75 e 125 euros ou R$ 260 a R$ 437. Uma refeição, no mesmo nível, com o vinho indispensável, baila entre 30 e 50 euros, ou seja R$ 105 a R$ 175. Em restaurante popular escolhido, um refeição que nada fica a dever aos afamados, fica entre 15 a 20 euros, um terço, R$ 45 a R$ 70,

Convém aproveitar, pois as perspectivas, lá como cá, não são otimistas. Inteligente, estudioso e atento amigo, Antônio D'Aguiar, matemático com o gosto pelas análises econômicas, resume a crise que balança a união européia na letal mistura da incompetência arrogante de governos dissipadores, que gastam e roubam o dinheiro público com o endividamento aloucado. Manifesta a esperança no futuro com a visão do presente da crescente e fraterna estima dos povos da Europa sem fronteiras. E no correspondente desapreço pela classe política.

As longas conversas em sua casa no Restelo, em restaurantes, no hotel sempre me provocavam a impressão de que já vi este filme. Mais de uma vez. Sem tirar nem pôr na sua novíssima reprise.


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[15/JUN/2005]


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