Livro curioso e surpreendente chegou-me pela via de mãos amigas. O volume bem cuidado pela Biblioteca do Exército Editora, com o capricho da capa ilustrada pela foto do autor com a farda da Legião Estrangeira e o boné de aba branca enfiado na cabeça amortece a escassa curiosidade com o título de gosto de melosa pieguice:
Tempos de inquietude e de sonho.
Trata-se das memórias de guerra e aventuras de Raul Soares da Silveira, até então um ilustre desconhecido na vastidão da minha ignorância.
A apresentação sucinta, em página e meia, do Coronel de Artilharia e Estado Maior Hélio Mendes, com a credencial de ex-combatente veterano da Força Expedicionária Brasileira (FEB) ajuda a dissipar as nuvens que toldam a cuca: o autor é qualificado como ''um idealista sonhador'' que perseguiu o destino até a realização em três etapas que consumiram duas décadas da sua vida: a primeira, na expedição ao Rio Araguaia, em 1941, com um grupo de amigos; a segunda como voluntário no Exército da França Livre, organizado pelo General Charles de Gaulle e a terceira, a sua inclusão, a pedido, em batalhão de infantaria da Legião Estrangeira no qual participou em violentos combates na Síria, no Egito, na Líbia e na Tunísia no período de 1941 a 1943. De volta ao Brasil, consegue ingressar, em 1933, na Fundação Brasil Central e participa da marcha para o oeste, movimento de iniciativa do Estado Novo de Getúlio Vargas, onde permanece até a aposentadoria, em 1962.
Não é uma vida perdida na mediocridade da rotina. No prefácio de três páginas, o general Carlos de Meira Mattos justifica a classificação de Raul Soares da Silveira ''como uma singular exceção no currículo dos brasileiros de sua geração''. No seu entusiasmo de amigo, escala a exaltação a ''um dos maiores aventureiros de sua geração, talvez o maior pelo ineditismo do seu currículo''.
Com tais recomendações, atirei-me à leitura. E estive quase a desistir, espaventado pela ingênua fórmula de contador de história aos netos reunidos em redor do vovô, instado a desfilar as suas aventuras. E com o recheio fofo de longas dissertações morais como escora de conselhos cívicos. Os netos palpitam em digressões de inverossímil maturidade, quando o natural seria a debandada ou o desligamento do sono com o acalanto de tais amolações.
Saltando páginas, pulando parágrafos, atravessei o cipoal das reminiscências biográficas, casos de família, cursos, estudos, resumos históricos e estaquei, paralisado pelo espanto e a surpresa, com o encontro com o escritor a partir da página 67 quando entra de corpo e alma no tema do livro. O texto ganha o relevo despojado de um memorialista de raça que nada esquece e na precisão das minúcias, das datas, horas e minutos parece que enfrentou sangrentos combates, a fome, a sede, tiritou de frio, foi ferido três vezes com gravidade com o caderno de notas na mão e a caneta atrás da orelha.
Um esplêndido narrador, fluente e com a dosagem exata da emoção, sem jamais descambar para o exagero. E uma vida fabulosa de aventureiro sem medo, sabendo o que queria nas muitas reviravoltas do seu destino.
No gênero, é a melhor crônica da segunda guerra mundial que conheço. Certamente que não cabe a comparação com as crônicas, reportagens matérias da estupenda equipe de jornalistas enviados pelos principais jornais do país para a cobertura da FEB, como Joel Silveira, Rubem Braga, Egídio Squef e tantos outros.
Raul Soares da Silveira, aos 21 anos, iniciou a sua aventura de combatente da legendária Legião Estrangeira, na Síria, q uando participa de vários combates. Na linha de frente, no Egito, envolve-se na batalha cruenta de El-Alamein e na Libia insere seu nome na heróica resistência de Bir Hakeim; assiste de perto, como combatente, a expulsão das tropas alemãs da África do Norte.
Três vezes ferido em combate. Desligou-se da Legião Estrangeira com a decisão de integrar o primeiro escalão da FEB. Regressa ao pais com uma coleção de medalhas, condecorações, a Legião de Honra, duas promoções por atos de bravura.
Para colher a flor da decepção com a rejeição para servir na FEB, reprovado no exame médico.
Uma grande vida contada pelo autor, memorialista privilegiado pelo destino, que soube dobrar para realizar o seu sonho.