Pelos sintomas conhecidos, as tripas do governo e do PT estão em pandarecos, com suspeita de crise crônica, a reclamar tratamento sério, urgente e enérgico.
Todos os partidos conservadores padeceram os seus desarranjos no secular rodízio centrista do poder. Desde o velho e matreiro PSD, com as manhas mineiras e a caipora UDN das muitas derrotas, da ilusão da vitória com o biruta renunciante Jânio Quadros à desmoralização no concubinato com os quase 21 anos de ditadura militar.
Nos exemplos mais recentes, o presidente José Sarney pagou seus pecados na conflituosa convivência com o PMDB do doutor Ulysses; Fernando Collor de Mello não tinha partido para azucrinar e andou às turras com os aliados até ser despachado em meio do mandato; nos oito anos dos mandatos bisados com a estréia da reeleição, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso invadiu acampamentos partidários, cooptando apoio para garantir maioria parlamentar.
Esperava-se que com o Partido dos Trabalhadores seria diferente. Por todas as óbvias razões, badaladas nas quatro campanhas de Lula até a eleição por 53 milhões de voto no segundo turno de 2002 e pela história do partido, nascido no movimento sindicalista com a carismática liderança do torneiro mecânico Luiz Inácio Lula da Silva.
Desconfortos internos pipocaram na montagem do mostrengo ministerial de 35 ministros e secretários híbridos de ministro. Extremada com as críticas à política econômica do ministro petista Antonio Palocci e a nomeação do banqueiro Henrique Meirelles para presidente do Banco Central, alastrou-se como tiririca.
Depois de atritos que custaram o preço da expulsão ou desligamento de quadros ilustres, como os deputados Airton Soares, Beth Mendes e José Eudes, que votaram em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, em desobediência à linha torta do partido, chegou a vez da ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina fazer a trouxa e mudar de pouso.
Agora, francamente, está demais, passa da conta do razoável e compreensível na transição para o governo e o ajustamento à guinada social-democrata do formato conservador da política econômica obediente ao Fundo Monetário Internacional (FMI). E a agravante dos azares e fracassos na implementação do contrapeso de programas sociais, como o Bolsa Família esburacado por denúncias de irregularidades e a paralisia administrativa, previsível e anunciada pelo estilo oral do presidente que fala, viaja mas não governa.
O racha de alto a baixo que puxou a vaia ao presidente Lula no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, fechou o espetáculo com o desligamento em massa do partido de 112 militantes, entre quais figuras destacadas, como Plínio Arruda Sampaio Júnior, fundador da legenda, filho de um dos seus formuladores teóricos, Plínio de Arruda Sampaio, e do economista Reinaldo Gonçalves, da equipe seleta que elaborou o programa econômico das campanhas de Lula.
A debandada incha, com tendência para chegar a 500 desligamentos e de desaguar no P-SOL, partido criado pelos rebeldes expulsos do PT em 2004, por votar contra a reforma da Previdência: senadora Heloisa Helena e deputados Luciana Genro e João Batista Babá. O alinhavo enfrentará alguns nós que terão que ser desatados: a sigla dos dissidentes indicou a senadora alagoana Heloisa Helena como candidata potencial à sucessão presidencial de 2006.
Se o PT aprendeu praticando a fazer oposição, revela-se desastrado na reação às crises internas que fundem a cabeça dos dirigentes nas mais disparatadas e incongruentes reações. A começar pelo presidente, José Genoino, que virou o fio e de excepcional parlamentar oposicionista não consegue acertar uma declaração no transe do desmanche do partido. No aturdimento da debandada de Porto Alegre, emplacou a pérola de lógica pelo avesso na frase solene e oca: ''Os dissidentes vivem à sombra do PT. Estão criando um fato político que só mostra o quanto o PT é grande.'' Exatamente quando os dissidentes abandonam a barraca da desbotada estrela vermelha e desfalcam os seus quadros com o desligamento de mais de uma centena de militantes.
A crítica deve ser tolerante e compreensiva. A barra está feia no PT com o acúmulo caipora de sinais de desagregação. O estouro do Fórum Social Mundial bate de frente com a barafunda da próxima eleição do presidente da Câmara, com dois candidatos petistas: o deputado Luiz Eduardo Greenghalg, com a chancela oficial, às voltas com a exumação do escândalo da intermediação de propina para a campanha de Lula, em 1889, e o deputado Virgílio Guimarães, dissidente, catando apoios em todos os partidos.
No caso, o melhor é não apurar nada e ir em frente. Não há tempo nem condições para substituir o candidato. A sorte está lançada nas águas do azar.