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A reforma e o guarda-chuva


Entre as muitas intrigantes curiosidades que adornam a personalidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, merece destaque a incoerência entre a instantânea decisão, no impulso para satisfazer os seus caprichos pessoais e a infinita procrastinação, no conflito interno das hesitações até o lance no xadrez da política ou no tabuleiro de damas do governo.

Para ficar em exemplos recentes: o presidente não titubeou um segundo para autorizar a compra do Air Bus de US$ 56 milhões para substituir o veterano Sucatão, relíquia em bom estado e que ainda deve voar muitos anos; de estalo, renovou o guarda-roupa com a encomenda de cinco dezenas de ternos em alfaiate da moda; driblou a debilidade das dotações orçamentárias promovendo uma vaquinha de empresários de mãos abertas para as obras de restauração e embelezamento do Palácio Alvorada - a residência oficial para a pompa das solenidades e que se completa com a privacidade da Granja do Torto, que tanto encanta o casal presidencial.

Pois, para a anunciada reforma do mastodonte ministerial extravia-se no cipoal de consultas, conversas e reuniões, no rodeio de muitas voltas sem sair do lugar. Certo que é mais simples comprar um avião de luxo e ternos às dúzias do que o troca-troca de ministros e secretários para o arranjo que facilite a reeleição, prioridade absoluta para os dois próximos anos que fecham o mandato.

O que embaraça o presidente não é a dificuldade em trocar peças no mastodonte ministerial, atolado no brejo da falta do que fazer. A evidência que não se tapa com a peneira da dissimulação é que Lula não pretende e nunca lhe passou pela cabeça reformar para valer o erro calamitoso de compor o governo criando e distribuindo ministérios e secretárias como quem atira balas para crianças no dia de São Gomes e São Damião. O agasalho de petistas castigados pelas urnas injustas, os prêmios aos vitoriosos e os cafunés nos cupinchas de estimação resultou na confirmação do esperado: com as exceções que não esgotam os dedos de uma das mãos, o brutamontes apalermado de 35 ministros, ao fim de dois anos, não tem o mostrar para enfeitar a árvore da reeleição, a única que restou na plantação de esperanças das promessas de quatro campanhas.

Os êxitos da equipe econômica, impressos nas estatísticas, que ainda agora comemoram o recorde de novos empregos com carteira assinada, não chegam ao povão nem abanam o sufoco da classe média, espremida no sanduíche da folia dos ricos e da encenação dos programas sociais.

Lula segue as pegadas do fracasso do seu antecessor, repetindo os mesmos erros primários que arruinaram os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. Com a diferença, que agrava os equívocos do reincidente: o governo FHC descarrilou no meado do primeiro mandato, quando a reeleição virou a obsessiva meta do sociólogo e sua turma. Até então, aprovou as reformas que quis no Congresso rendido à sua liderança.

O petista começou metendo os pés pelas mãos. E o otimista inflado de vaidade e arrogância, que se orgulha da esperteza na improvisação, que pensa falando, sempre acompanhado, pois desdenha a solidão, pelo visto não deu pelas mancadas ou não quer dar o braço a torcer.

Nem o PT e muito menos o presidente desejam reformar coisa nenhuma. A correria para selar acordos com aliados para a reeleição em 2006 é a única, a exclusiva, a compulsiva obsessão que sacode a pasmaceira oficial, com a série de almoços e jantares, as rodas de conversas e a oferta de ministérios. O governo fareja a caça disponível e arma os mundéus com carniça.

O deslumbrado e notório PMDB está empanturrado de convites para os rega-bofes nas residenciais oficiais, regadas a mordomias e com a promessa de mais um ministério com verbas fartas da especialidade da legenda. Na fila, o PTB, o PP e siglas menores, esperam a vez. Votos catados como xepa de feira.

Revolvendo o lixão dos programas sociais que não vingaram ou que se meteram em encrencas - como o Bolsa-Família, largado às traças com a dissolução da equipe - o governo anuncia agrados para a classe média, com a construção de milhões de moradias, correção da tabela extorsiva do imposto de renda. E o PT , no alvoroço do remorso, defende com bons modos a redução dos juros e acaricia a minoria dos radicais.

Encenação, fingimento, espetáculo para enganar o eleitor. O governo é o retrato do presidente e Lula não sabe administrar. Mas, muito bom de papo e um craque no improviso. Sempre é um consolo.


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[24/NOV/2004]


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