O governo passou recibo na contradição interna da sua dupla face: o verso dos acertos e o reverso das trapalhadas que mantêm acesa a lamparina de luz mortiça e que aquece a crise a merecer a qualificação de crônica.
Em desabafo amargo, o assessor presidencial na área internacional, Marco Aurélio Garcia, lamenta, mas não chega a chorar, o caiporismo da simultaneidade do brilho que reluz no noticiário sobre a atuação do presidente Lula na 59ª Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) com a desastrosa repercussão doméstica do improviso na inauguração de obra municipal, em São Paulo, quando, no desembaraço de campanha, pediu votos para a prefeita Marta Suplicy, petista candidata à reeleição. E que o obrigou ao constrangimento de desculpar-se publicamente dos excessos oratórios da sua empolgação.
Como o governo é sempre o reflexo do presidente, a personalidade de Lula imprime sua marca no verso e reverso que se atritam nos choques da duplicidade.
O episódio que preocupa o assessor expõe, ampliada pela importância, a permanente incoerência entre os bons resultados dos improvisos e da intensa movimentação do presidente, na agenda de viagens internacionais e pelo país, quando exercita a sua facilidade de comunicação com os mais diferentes públicos e sustenta nas alturas os índices de popularidade e de aprovação pessoal e o seu desinteresse, o enfado pela rotina administrativa, em grande parte responsável pela bagunça que impera na máquina paralisada pelo gigantismo.
Parecem duas pessoas, não apenas diferentes, mas opostas. Até a oposição rendeu-se ao êxito pessoal do seu desempenho na ONU. O discurso no tom exato da crítica ao protecionismo dos países ricos, à indiferença pela miséria e a pobreza que castigam o pedaço do mundo em que milhões morrem de fome e vegetam na miséria, colheu os aplausos do plenário e a generosa repercussão na imprensa. E não ficou na efêmera badalação, que logo silencia no esquecimento. A articulação do grupo dos quatro, o G-4, com os parceiros de peso do Japão e da Alemanha, aliados do Primeiro Mundo, além da Índia, promete desdobramentos em médio prazo na luta comum pela ampliação do Conselho de Segurança da ONU, para abrir vagas para os pretendentes que arregaçam as mangas e vão à luta. E o nosso Fome Zero, engolido pela Bolsa Família, alvejada por denúncias de irregularidades que forçaram o governo a suspender até o fim das eleições municipais de 3 de outubro, a distribuição de bolsas para os carentes, ganhou status e está incluído dos próximos encontros dos líderes do mundo.
Por aqui, os desencontros não desatam o nó do pacote da confusão. Além do tombo na retomada do desenvolvimento com o aumento da taxa de juros de 16% para 16,25% da última rasteira do Copom, a pancada surda no peito com a decisão de aumentar o superávit primário - receita menos despesas, saem contar os juro da dívida pública - de 4,25% para 4,50%, para forçar uma economia de mais R$ 4,3 bilhões, desviados de investimentos públicos de clamorosa urgência e que apenas confirma a sabida prioridade do ajuste econômico sobre as aflições sociais.
Certamente o poderoso ministro da Fazenda, Antonio Palocci, dispõe no seu repertório das mais variadas justificativas para a trombada petista nos compromissos repetidos em quatro campanhas.
Já é tempo de a sociedade acostumar-se e conformar-se com as virtudes e defeitos do presidente Lula, repassados para o governo. Ansioso e impaciente sempre que se enrosca nas suas debilidades, não é certamente um administrador com os cacoetes burocráticos, por exemplo, do presidente Vargas, que despachava todas as noites, invadindo as madrugadas, na solidão do seu gabinete no Palácio do Catete, ou com um assessor, o ''volumoso expediente'' do registro de centenas de páginas do seu Diário. Nem o obsessivo tocador de obras do modelo de JK, com a biografia de reformas que mudaram o perfil da provinciana Belo Horizonte; depois de Minas Gerais, para os 50 anos em 5 do mandato presidencial que inaugurou um novo estilo de governo, nunca repetido.
No noticiário das TVs de ontem, a rápida imagem de Lula, folheando um magro processo, saltando páginas, com a fisionomia carrancuda de quem se aborrece, chamou a atenção pelo inusitado.
A eficiência, a disciplina, a coesão, a vigilância do governo pagam o preço caro pelo seu temperamento. E pelos remendos e improvisações para acudir as crises, brigas, ciumeiras no clima de fuxico do ambiente oficial. O chefe da Casa Civil, ministro José Dirceu, virtual substituto do presidente nas suas ausências e omissões, faz o que pode e até exorbita, mas não é o insubstituível titular eleito.
Nas especulações alimentadas pelas inconfidências dos íntimos que não controlam a língua, antecipa-se a inevitável reforma ministerial para depois da apuração e análise das eleições municipais. Inclusive do segundo turno. E o equívoco pertinaz de reduzir a reforma à troca de ministros para recompor a base de apoio parlamentar é típica da inexperiência administrativa. Clama ao céu que o erro essencial, do qual decorrem os outros, é a obesidade, que bate todos os recordes de deformação doentia, dos 35 ministros e secretários para acomodar os renegados pelas urnas.
Se não mudar a toada, se não for para consertar o que está torto é melhor não mexer no que está dando errado.
Pelo menos, com a barafunda atual, com o marasmo da maioria dos ministros e secretários já nos acostumamos.